Lula recorre ao inimigo externo para sobreviver em 2026

O Brasil entra novamente em um ano eleitoral sob um clima já conhecido. Quando as pesquisas começam a mostrar perda de fôlego do governo e aproximação dos adversários, o discurso político muda de eixo. Sai o debate interno, entram os grandes embates externos. Em 2026, esse movimento aparece com nitidez.
O presidente Lula volta a recorrer a uma estratégia que já lhe trouxe dividendos no passado: unir parte da opinião pública em torno de um inimigo comum fora das fronteiras do país. O alvo da vez é, mais uma vez, Donald Trump, figura que simboliza, ao mesmo tempo, o poder norte-americano, a direita internacional e, por associação, a direita brasileira.
Em ano eleitoral, o conflito externo costuma funcionar como cola política interna.
O pano de fundo é a retomada do protagonismo político de Trump no cenário internacional. A ideia de criar um conselho global, sob sua liderança, com poder de decisão sobre temas estratégicos envolvendo outros países, gera resistência automática em governos que defendem soberania e multipolaridade.
O Brasil foi convidado, Lula foi chamado a participar, mas a recusa abre espaço para o discurso político. A partir daí, as críticas ganham tom mais duro e passam a cumprir uma função doméstica objetiva.
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Ao atacar Trump, Lula não fala apenas aos Estados Unidos. Ele fala ao eleitor brasileiro. A mensagem implícita é simples: existe uma ameaça externa que precisa ser contida, e essa ameaça estaria alinhada com forças políticas internas que disputam o poder. No passado, essa narrativa funcionou. Reforçou a imagem de liderança internacional, fortaleceu a base política e ajudou a reorganizar o debate público em torno de um “nós contra eles”.
O adversário externo ajuda a simplificar a narrativa quando o cenário interno se complica.
Desta vez, porém, o contexto é mais complexo. A direita brasileira está mais estruturada, mais vocal e menos constrangida em assumir posições claras. Ao mesmo tempo, parte do eleitorado demonstra cansaço de discursos simbólicos e cobra respostas mais objetivas para problemas econômicos, fiscais e sociais. O risco, portanto, é evidente: a estratégia pode não produzir o efeito desejado.
Há ainda um segundo movimento em curso. Ao se aproximar retoricamente da China e de outros polos de poder alternativos, Lula sinaliza uma escolha geopolítica que também dialoga com a política interna. Essa aproximação reforça sua narrativa histórica de autonomia frente aos Estados Unidos, mas reacende críticas sobre alinhamentos estratégicos e interesses nacionais de longo prazo.
Geopolítica, neste momento, também vira ferramenta eleitoral.
O resultado final é incerto. O presidente aposta que transformar Trump em antagonista ajudará a enquadrar a direita brasileira como aliada de um projeto externo supostamente hostil ao Brasil. A direita, por sua vez, tenta inverter o jogo, argumentando que o confronto ideológico pode gerar custos econômicos, diplomáticos e comerciais desnecessários.
Em ano de eleição, discursos ganham peso, símbolos ganham força e inimigos ajudam a organizar narrativas. Resta saber se, em 2026, o eleitor brasileiro responderá novamente a esse roteiro conhecido ou se exigirá algo diferente: menos confronto externo, mais solução interna, ainda que essa resposta só fique clara quando as urnas forem abertas.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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