Carnaval não é palanque eleitoral

O Carnaval nunca foi neutro. Escola de samba é cultura, é crítica social, é memória histórica cantada na avenida. Ao longo do tempo, os enredos exaltam personagens, denunciam injustiças e dialogam com o poder. Isso faz parte da tradição.
O problema não está na liberdade artística. Está no momento escolhido. A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizada em ano eleitoral e num país profundamente polarizado, deslocou o desfile do campo cultural para o campo político.
O que poderia ser interpretado como narrativa histórica passou a ser lido como gesto eleitoral. E, em política, o timing molda a interpretação.
- Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!
Era previsível que haveria reação, e ela veio. Parte da mídia mergulhou em análises intermináveis sobre possíveis consequências jurídicas. Partidos passaram a discutir representações, multas e questionamentos formais. O debate virou especulação. A política fez o que sempre fez: transformou símbolo em disputa.
Enquanto isso, o país enfrenta problemas muito mais urgentes: endividamento crescente, crédito caro, crescimento frágil e insegurança econômica. A população observa, já cansada, uma discussão que pouco altera sua vida concreta.
Quem ganha?
O governo reforça sua imagem junto à sua base. A oposição ganha argumento para tensionar o ambiente eleitoral. A polarização se alimenta.
Quem perde?
Perde a escola, e aqui é preciso deixar claro: ela tem plena liberdade para escolher o tema que quiser. A autonomia cultural é inegociável. Mas liberdade também exige responsabilidade na leitura do contexto. Escolher é um direito; avaliar o impacto e o momento é uma necessidade estratégica.
Quando o enredo se associa diretamente a um presidente em exercício, em pleno ano eleitoral, a escola assume o risco de ser percebida como parte da disputa política, e não apenas como expressão artística.
Perde o ambiente institucional, que se torna ainda mais ruidoso. E perde, sobretudo, o Brasil, que continua discutindo o acessório enquanto o essencial permanece sem solução. E aqui cabe um posicionamento claro. Particularmente, sou contrário à realização desse desfile com esse tema neste momento.
Não porque se deva negar a trajetória de Lula, que, como qualquer líder político relevante, tem capítulos importantes na história do país e também muitos pontos que precisam ser debatidos. Mas porque não é adequado transformar a avenida em celebração de um presidente em exercício justamente em ano eleitoral que é candidato à reeleição.
Tudo tem hora
Se a homenagem fosse feita em outro contexto, com distância histórica e fora do calendário eleitoral, a leitura seria outra. Agora, soa imprudente. E, sendo franco, o próprio presidente deveria ter tido a sensibilidade de compreender isso e evitar que a situação avançasse. Em ano de eleição, ovacionar o chefe do Executivo na maior vitrine cultural do país inevitavelmente produz ruído institucional.
Carnaval é festa. Mas também é símbolo. E o símbolo, em período eleitoral, pesa. O Brasil precisa reduzir tensões, não ampliá-las. Precisa de foco no que realmente importa, economia, estabilidade e confiança.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
O post Carnaval não é palanque eleitoral apareceu primeiro em Canal Rural.
Fonte: https://www.canalrural.com.br/opiniao-noticias/carnaval-nao-e-palanque-eleitoral/
Conteúdo importado automaticamente pelo HOST Portal News
🔔 Clique no link, entre em nossa comunidade no WhatsApp do Guia Lacerda e receba notícias em tempo real!
