O oscarizado Campanella faz de “Parque Lezama”, estreia da Netflix, tributo à necessidade humana de fabulação e sonho

Por Maria do Rosário Caetano

Juan José Campanella, que conquistou o Oscar com “O Segredo dos seus Olhos”, deu trégua, mesmo que temporária, à realização de múltiplas séries para dirigir um filme – “Parque Lezama – Conversas no Parque” – para a Netflix.

Ao lançar seu novo longa-metragem, o cineasta externou — ao jornal El País madrilenho — seu desejo de trazer para as telas “emoções de gente comum” e narrar “histórias aparentemente pequenas”. Afinal, crê que muita gente, como ele, “necessita de personagens que possam refleti-los”. Ou seja, “não voam” pois não “têm superpoderes”.

“Parque Lezama” – disponível na Netflix desde sexta-feira, 6 de março – é protagonizado por dois homens comuns. Um zelador de prédio, Antonio Cardozo (Eduardo Blanco), realista e desesperançado, e outro de profissão indefinida, León Schwartz (o formidável Luis Brandoni), falastrão, cheio de ideias e planos mirabolantes. E, acima de tudo, um mentiroso, um grande fabulador.

Esses dois homens octogenários se encontram num parque de Buenos Aires, o Lezama do título, e se estranham. Mas, ao longo de 115 minutos, viverão juntos experiências curiosas e enriquecedoras.

A dupla se relacionará com personagens secundárias como uma estudante de Artes que desenha esboços do parque, um pequeno estalador, um representante do prédio onde vive e trabalha Antonio, um “drug dealer”, que cobra dívida e, em especial, a filha de León, Clara Schwartz.

Moça chique, Clara (Verónica Pelaccini) é em tudo oposta ao pai, um homem de passado socialista. Ela teria trocado, com suas roupas sofisticadas e longas botas de verniz – acusa o pai – “Marx & Engels por Dolce & Gabbana”.

Os melhores diálogos de “Parque Lezama” terão a ver com o passado de militante comunista de León. Ele chegará a lamentar que a amada filha tenha se transformado “em minha KGB”, pois ela o vigia, com intenção de interná-lo em casa de repouso.

O psicanalista citado na trama se chama Frederico Engels. Clara lembrará que, no final da infância, sonhava ganhar uma bicicleta. O pai, porém, a presenteou com “O Capital”, de Karl Marx. Até “A Internacional” ganha espaço nobre na discreta trilha sonora.

Campanella, cada vez mais enfronhado na realização de séries norte-americanas, não dirigia um longa-metragem desde “A Grande Dama do Cinema”, protagonizado pela diva Graciela Borges. Ao adaptar o texto teatral “I’m Not Rappaport”, do estadunidense Herb Gardner (1934-2003), aclimatou-o à realidade argentina.

Escrita em 1985, a peça original foi montada com sucesso e levada ao cinema onze anos depois e ganhou, no Brasil, o título de “Rabugentos e Mentirosos” e contou com os atores Walther Matthau e Ossie Davis.

No texto teatral e em sua versão cinematográfica, que o próprio Gardner dirigiu, assistimos às conversas, no Central Park, de dois velhos novaiorquinos, ambos turrões, sendo um judeu de esquerda e o outro um zelador afro-americano.

Campanella trabalha com dois personagens brancos. Preserva a origem judáica de León e sua filiação à esquerda. E preserva o que a trama original tem de melhor – o reconhecimento dessa necessidade tão humana de contar (ou ouvir) infinitas histórias.

No momento em que o filme argentino chega a seu ápice, León revela a pequenez de sua vida profissional. A verdade finalmente exposta pelo mentiroso será rechaçada por Antonio. Depois de tanto protestar contra as invencionices do “amigo” de banco de praça, ele abraçará o prazer de ouvir tramas fantasiosas. E isso acontecerá, em sequência metalinguística, que citará os festivais de Cannes e de San Sebastián, no qual um suposto documentário – “As Veias Abertas de Pachamama” (citação do livro mais conhecido de Eduardo Galeano) teria ganho a Concha de Oro.

“Parque Lezama” não tem as qualidades de “O Segredo dos seus Olhos”, o ‘Darin movie’ que rendeu a Campanella o segundo Oscar argentino (o primeiro chegara, quinze anos antes, com “A História Oficial”, de Luiz Puenzo). Nesse novo longa-metragem, o diretor, roteirista e montador não consegue esconder sua matriz teatral. A primeira meia-hora de “Parque Lezama” se sustenta somente nos diálogos entre os dois personagens. Puro teatro filmado. Mas há que resistir e seguir em frente.

As quase duas horas de duração da trama acabarão trazendo compensação aos persistentes. Principalmente o final libertário, verdadeiro libelo em defesa do poder da imaginação, de nossa atávica necessidade de fabulação. Como escreveu Umberto Eco, o ser humano, desde tempos imemoriais, quando se reunia em torno de uma fogueira, o fazia (e continua fazendo) por absoluta necessidade de criar histórias e narrá-las.

Os créditos técnicos do filme são pouco inventivos, mas resultam eficientes. Fotografia, trilha sonora e montagem foram concebidos para servir ao solo dos dois atores. Eduardo Blanco, colaborador histórico de Campanella, tem apenas 68 anos. Mas convence como um senhor de 86 (só no início a maquiagem que o envelheceu se faz notar). Já Luis Brandoni, de reais 85 anos, é a alma do filme. Que ator!

Na década de 1980, Brandoni causou furor no Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana com a comédia  “Esperando la Carroza” (em tradução livre, “Esperando o Rabecão”). E dali em diante só faria crescer e se impor como um dos maiores atores de seu país e da América Latina.

Recentemente, a descolada dupla Mariano Cohn & Gastón Duprat o convocou para protagonizar a série “Nada” (no Brasil, “O Faz Nada”), na qual interpreta Manuel Tamayo Prats, crítico de gastronomia, muito do chic, rabugento e algo arrogante. Que será obrigado, por circunstâncias da vida, a se entender com uma doméstica paraguaia (Majo Cabrera). Até Roberto De Niro fez participação especial na trama.

O que o octogenário Brandoni faz em “Parque Lezama” é um espanto. Um show de bola, para evocarmos o título brasileiro de “Metegol”, a animação de Campanella, parte de sua trinca de “tanques” (como os argentinos chamam os blockbusters), ao lado de “O Filho da Noiva” e “O Segredo dos seus Olhos”.

Cabe ao veterano ator, no novo filme de Campanella, dizer diálogos enormes (e teatrais) e estar a maior parte do tempo em cena (seu papel é bem maior que o do outro “idoso”). A longa sequência que ele protagoniza com sua “filha” Cecília é memorável. Sem Brandoni e sem o final que se dissolve em cores oníricas, ao som de A Internacional, “Parque Lezama” seria uma obra olvidável.

Juan José Campanella conseguiu, apesar dos limites do projeto, realizar um filme que comprova seu slogan publicitário (“Às vezes é bom falar com estranhos”). E mostrar que é possível atrair o público com tramas protagonizadas por personagens que não voam, pois não dispõem de nenhum superpoder.

 

Parque Lezama – Conversas no Parque
Argentina, 2025, 1h55′
Direção, roteiro e montagem: Juan José Campanella
Elenco: Luis Brandoni (León Schwartz), Eduardo Blanco (Antonio Cardozo), Verónica Pelaccini (Clara Pelaccini), Agustín Aristarán (Gonzalo), Matias Alarcón (o traficante), Alan Taty Fernandez (estafador), Manuele Menéndez (a jovem estudante)
Onde assistir: na Netflix

 

FILMOGRAFIA
Juan José Campanella (Buenos Aires, 19 de julho de 1959), diretor, roteirista e produtor

2026 – Parque Lezama
2019 – A Grande Dama do Cinema
2013 – Metegol – Um Show de Bola
2009 – O Segredo dos seus Olhos
2004 – Clube da Lua
2001 – O Filho da Noiva
1999 – O Mesmo Amor, a Mesma Chuva
1997 – Love Walked in
1991 – The Boy Who Cried Bitch
1984 – Victoria 392


Fonte: https://revistadecinema.com.br/2026/03/o-oscarizado-campanella-faz-de-parque-lezama-estreia-da-netflix-tributo-a-necessidade-humana-de-fabulacao-e-sonho/

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