Revolução contra a obesidade: pesquisa com cobras pitóns pode reduzir o apetite

Revolução contra a obesidade: pesquisa com cobras pitóns pode reduzir o apetite

Uma descoberta surpreendente pode revolucionar o tratamento da obesidade: cientistas identificaram uma molécula no sangue de cobras pítons que reduz o apetite sem causar náuseas ou perda muscular. O composto, batizado de para-tiramina-O-sulfato (pTOS), oferece uma alternativa promissora aos medicamentos atuais contra obesidade.

A pesquisa, publicada na revista Nature Metabolism, revela como essas serpentes conseguem controlar naturalmente o apetite após grandes refeições. Os testes iniciais em camundongos mostraram resultados animadores, mas ainda há um longo caminho até chegar às prateleiras das farmácias.

Para estudar a química do banquete das pítons, os pesquisadores submeteram as serpentes a um regime que imita a natureza: 28 dias de jejum, seguidos por uma refeição equivalente a 25% do peso corporal. Poucas horas depois, coletaram sangue. O que encontraram foi uma explosão molecular. Mais de 200 substâncias tiveram sua concentração multiplicada por pelo menos 32 vezes, e 24 delas caíram na mesma proporção. No topo da lista, uma molécula que aumentou mais de mil vezes: o pTOS.

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Imagem: pito kung / iStock

“Nos perguntávamos se esse metabólito afetava alguma das alterações fisiológicas pós-alimentação na cobra”, conta Jonathan Long, professor de patologia em Stanford e autor sênior do estudo, em comunicado. “Mas quando administramos pTOS a camundongos de laboratório, não vimos nenhum efeito no gasto energético, na proliferação de células beta ou no tamanho dos órgãos. O que ele regulou foi o apetite e o comportamento alimentar dos camundongos.”

Camundongos obesos perderam peso

Os camundongos obesos que receberam pTOS passaram a comer menos do que os animais do grupo de controle. Após 28 dias, haviam perdido 9% do peso corporal, sem alterações na ingestão de água, no gasto de energia ou na movimentação. O efeito não se deve a uma redução no esvaziamento gástrico — um dos mecanismos dos medicamentos à base de semaglutida — nem a mudanças nos hormônios conhecidos por regular a fome.

Em vez disso, os pesquisadores traçaram a rota do pTOS: ele é produzido pela degradação da tirosina, um aminoácido presente nas proteínas, por bactérias intestinais. Depois de gerado, viaja até o hipotálamo, a região do cérebro que comanda o equilíbrio energético, e ali ativa neurônios envolvidos na regulação do comportamento alimentar. Quando as pítons receberam antibióticos antes de se alimentar, o pico de pTOS desapareceu — prova de que a microbiota intestinal é parte essencial do processo.

O que as pítons têm de especial? Em humanos, o pTOS também aumenta após as refeições, mas apenas de duas a cinco vezes — um salto muito menor, que se perde no meio de centenas de outras variações metabólicas. Um único indivíduo, em um dos bancos de dados analisados, apresentou um aumento de mais de 25 vezes, aproximando-se dos níveis vistos nas cobras. (Como os dados eram de estudos antigos, não se sabe se essa pessoa comeu menos ou se sentiu mais saciada.).

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Imagem: Tudo Sobre Cobras/Reprodução

Estudo pode mudar tudo

Para Long, o estudo reforça o valor de olhar para fora da caixa dos modelos tradicionais. “Os mamíferos têm uma faixa fisiológica e metabólica relativamente estreita. Humanos, por exemplo, comem cerca de 1% a 2% do seu peso corporal em cada refeição e comem cerca de três vezes ao dia. Obviamente, não somos serpentes. Mas talvez, estudando esses animais, possamos identificar moléculas ou vias metabólicas que também afetam o metabolismo humano.”

O trabalho não para na molécula da vez. Os pesquisadores estão mapeando todas as substâncias que variam após a alimentação em diferentes órgãos das pítons. Muitas delas se parecem com hormônios, mas não se assemelham a nada conhecido em camundongos ou humanos. “Esta é uma forma de descoberta de produtos naturais”, diz Long.

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A aposta é que, assim como o veneno de cobra deu origem a medicamentos para pressão arterial e anticoagulantes, e o hormônio do monstro-de-gila abriu caminho para a semaglutida, outras moléculas oriundas de animais extremos possam ter aplicações clínicas. “Talvez um paciente com diabetes tipo 1 devido a uma função defeituosa das células beta possa se beneficiar de uma molécula de cobra que estimule a divisão celular, ou uma pessoa com doença hepática possa tomar um medicamento derivado de cobra que facilite a remodelação do órgão”, especula Long.

Por enquanto, é cedo para dizer se o pTOS se tornará um novo remédio para perda de peso em humanos. Mas a história já deixou uma lição: às vezes, as respostas para os problemas mais humanos estão escondidas nos hábitos mais improváveis do reino animal.

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Fonte: https://olhardigital.com.br/2026/03/22/ciencia-e-espaco/revolucao-contra-a-obesidade-pesquisa-com-cobras-pitons-pode-reduzir-o-apetite/

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