Mostra Trabalho em Transe exibe clássicos do cinema operário comentados por Paulo Arantes, Ricardo Antunes e Ruy Braga

Grandes intelectuais brasileiros debaterão, na Cinemateca Brasileira, a partir dessa quarta-feira, 1º de abril, uma série de filmes reunidos em mostra-seminário organizada pelo cineasta Roberto Gervitz.

Até o domingo, 5 de abril, serão exibidos nove longas-metragens, dirigidos por grandes nomes internacionais (o britânico Ken Loach, a sino-americana Chloé Zhao, o romeno Radu Jude e o argentino Pablo Trapero) e brasileiros (Eduardo Coutinho, Renato Tapajós, Marcelo Gomes, Affonso Uchoa, João Dumans, entre outros). Serão exibidos, também, três médias-metragens, um da dupla Olga Futema e Renato Tapajós, outro de Lauro Escorel e o terceiro do britânico-brasileiro Adrian Copper.

As palestras que acompanharão os filmes serão proferidas pelo filósofo Paulo Arantes, pelos sociólogos Ricardo Antunes e Ruy Braga, e pelo professor de Cinema da USP Carlos Augusto Calil. Roberto Gervitz apresentará o filme “Braços Cruzados, Máquinas Paradas”, que ele dirigiu em parceria com Sérgio Segall Toledo.

A mostra Trabalho em Transe reúne produções cinematográficas que têm o mundo do trabalho como tema. Nenhum cineasta se ocupou tanto – e com tamanha repercussão – em refletir sobre as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores quanto Ken Loach. Dele será exibido “Você Não Estava Aqui” (foto). Com esse filme, o diretor de “Pães e Rosas” registra a luta de Rick Turner (Kris Hitchen) em busca da sobrevivência, após a crise financeira de 2008. Ele aluga uma van para trabalhar com entregas. Mas os problemas (familiares e laborais) irão se multiplicar.

A sino-americana Chloé Zhao ganhou o Oscar de melhor filme (em 2021) com envolvente incursão pelo mundo dos trabalhadores. No caso, daqueles que, desempregados por colapso econômico de cidade empresarial situada no estado de Nevada, passam a perambular pelos EUA em busca de novas ocupações.

“Não Espere Muito o Fim do Mundo”, realização de Radu Jude, um dos maiores talentos do Novo Cinema Romeno (premiado com o Urso de Ouro em Berlim por “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental”), é o mais provocador dos títulos mobilizados pela mostra. No centro da narrativa está uma jovem assistente de direção cinematográfica, sobrecarregada e mal paga, que perambula pelas ruas de sua cidade, Bucareste. Em sua peregrinação, ela, com celular na mão, a tudo documenta. Seu trabalho consiste em ajudar na realização de vídeo publicitário encomendado por uma multinacional. Quando um dos entrevistados faz uma declaração das mais polêmicas, ela é obrigada a reinventar-se. O filme de Jude servirá de preâmbulo para palestra de Paulo Arantes, professor da USP.

“Mundo Grua”, primeiro longa ficcional de Pablo Trapero, um dos mais importantes diretores do cinema argentino contemporâneo, acompanha um pai desempregado, que aceita trabalhar como operador de guindastes. Mas ele será dispensado por obesidade e insônia.

Os filmes brasileiros escolhidos para a mostra Trabalho em Transe vão de “Peões”, de Eduardo Coutinho, a “Arábia”, dos mineiros Uchôa e Dumans, passando pelos longas documentais “Linha de Montagem”, de Renato Tapajós, e “Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar”, de Marcelo Gomes. Até desaguar na ficção “7 Prisioneiros”, de Alexandre Moratto, o mesmo autor de “Sócrates”.

A Revista de CINEMA publica, abaixo, texto de Roberto Gervitz, que pensou a presença do trabalho no cinema e escolheu os doze filmes que serão exibidos nesses cinco dias de fruição cinematográfica e reflexão sobre as grandes transformações laborais em curso, nos quatro cantos do mundo:

Trabalho em Transe, o título dessa mostra, parodia e homenageia o cineasta Glauber Rocha em seu clássico e profético “Terra em Transe”. Neste filme, ele refletiu a voragem das trágicas contradições sociais e políticas, que tomaram o imaginário do país sul-americano de Eldorado (poderia ser o Brasil) nos conturbados anos 1960.

Naquela mesma década, 20 anos após o término da 2ª Grande Guerra, iniciavam-se importantes transformações em nível mundial, como resposta a uma nova crise do capitalismo. Mas elas só aterrissariam definitivamente no Brasil, no início dos anos 1980.

Ricardo Antunes costuma dizer que, se Chaplin fosse filmar “Tempos Modernos” hoje, ele certamente não utilizaria como cenário a linha de montagem fordista dos anos 1920 e 1930, mas sim a de uma fábrica de celulares.

Do ponto de vista cinematográfico não haveria perda maior, pois as linhas de produção ditas pós-industriais não possuem o menor interesse visual, além de prescindir cada vez mais do trabalho vivo. Um operário que foi ativo no século XX me disse que, ao entrar em uma fábrica no início deste século, teve a sensação de um inóspito espaço ocupado por gigantescos equipamentos robotizados, no qual os poucos operários pareciam técnicos liliputianos.

Estamos vivendo época de devastação de um tipo de trabalho que muitos de nós conheceram e que, apesar de envolver constrangimentos e alienação, era regulamentado por legislações que foram produto das lutas sindicais e dos movimentos de esquerda ao longo dos dois últimos séculos. O avanço tecnológico das forças produtivas, ocorrido a partir de meados do século passado, trouxe consigo profundas mudanças na vida dos trabalhadores contemporâneos.

Nos países do sul global, os direitos trabalhistas foram varridos, o desemprego cresceu brutalmente e, com a atomização dos trabalhadores transformados em “empreendedores de si mesmos”, o movimento sindical viu as suas bases desaparecerem.

Os laços de solidariedade, construídos no interior das fábricas, não mais foram possíveis com a precarização e a intermitência dos empregos e colocaram um novo desafio para os que pretendem se organizar e reverter um quadro sombrio. Esta nova etapa da humanidade, hegemonizada pelo capital financeiro e suas crises de largo espectro, atirou e segue atirando milhões de pessoas para um futuro sem qualquer horizonte, oferecendo-lhes como alternativa serviços ocasionais, condições de trabalho, há poucos anos, inconcebíveis e péssima remuneração. Os direitos previdenciários e de saúde foram quase que suprimidos.

O quadro geral revela uma classe trabalhadora mais complexa e fragmentada. No passado, ela foi preponderantemente masculina, e a diferenciação se dava entre qualificados (em geral homens brancos) e não qualificados. Hoje ela é tanto masculina quanto feminina e é acentuadamente marcada pela presença de indígenas, imigrantes e negros. Mas os estudiosos que alardearam o fim do trabalho tiveram que abandonar as suas teorias. Ele segue essencial como fonte de valor, mas em condições cada vez mais desumanas.

A seleção de filmes de ficção e documentais desta mostra oferece a oportunidade de refletirmos sobre estas importantes transformações que mudaram a nossa civilização em um curto espaço de tempo. Através do trabalho de realizadores de diferentes localidades do mundo, veteranos e novatos, e suas diferentes propostas de abordagem fílmica, poderemos nos deter em processos que a também nova vivência da passagem do tempo fragmenta.

Os filmes irão nos guiar através dos estertores das fábricas fordistas e tayloristas, e das últimas mobilizações sindicais características daquele estágio da produção, daí à brutal devastação desse antigo mundo, passando pela incredulidade e desorientação em direção à desmobilização, à precarização, ao isolamento dos indivíduos e a perda do sentimento solidário, com a diáspora de centenas de milhares de trabalhadores deserdados pelo mundo, e por fim à semi-escravidão com a conivência dos Estados e das sociedades. E, embora o cinema tenha registrado parcamente as novas mobilizações contra este estado de coisas, contaremos com as reflexões de três dos mais importantes intelectuais brasileiros: Paulo Arantes, Ricardo Antunes e Ruy Braga, pensadores críticos do capitalismo e do mundo do trabalho.

PROGRAMAÇÃO

Sessões e palestras:

• Quarta-feira (primeiro de abril)

18h00 – “Não Espere Muito o Fim do Mundo”, de Radu Jude – Sessão seguida de palestra com Paulo Arantes.

• Quinta-feira (dia 02/04)

15h30- Sessão dupla: “Trabalhadoras Metalúrgicas”, de Olga Futema e Renato Tapajós, e “Linha de Montagem”, de Renato Tapajós
18h00 “Braços Cruzados, Máquinas Paradas”, de Sérgio Segall Toledo e Roberto Gervitz – Sessão apresentada por Roberto Gervitz
20hOO – Sessão dupla de “Libertários”, de Lauro Escorel, e “Chapeleiros”, de Adrian Cooper) – Sessão seguida de palestra de Carlos Augusto Calil

• Sexta-feira (03/04)

15h00 – “Peões”, de Eduardo Coutinho
17h00 – “Mundo Grua”, de Pablo Trapero
19h00 – “Nomadland”, de Chloé Zhao – Sessão seguida de palestra com Ruy Braga.

• Sábado (dia 04/04)

15h00 – “7 Prisioneiros”, de Alexandre Moratto
17h00 – “Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, de Marcelo Gomes
19h00 – “Você Não Estava Aqui”, de Ken Loach – Sessão seguida de palestra com Ricardo Antunes

  • Domingo (05:04)

15h00 – “Arábia”, de Affonso Uchoa e João Dumans
17h00 – “Não Espere Muito Pelo Fim do Mundo”, de Radu Jude


Fonte: https://revistadecinema.com.br/2026/03/mostra-trabalho-em-transe-exibe-classicos-do-cinema-operario-comentados-por-paulo-arantes-ricardo-antunes-e-ruy-braga/

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