“Cinco Tipos de Medo”, grande vencedor do Festival de Gramado, chega aos cinemas em busca de diálogo com grande público
Por Maria do Rosário Caetano
Nos últimos anos, o badalado Festival de Cinema de Gramado vem ajustando seu foco em filmes realizados fora do eixo Rio-São Paulo. Tudo começou com o acriano “Noites Alienígenas”, de Sérgio de Carvalho, prosseguiu com o goiano “Oeste Outra Vez”, de Érico Rassi, e ano passado laureou o mato-grossense “Cinco Tipos de Medo”, sacudido thriller social do cuiabano Bruno Bini.
É, pois, chegada a hora de sabermos se “Cinco Tipos de Medo”, o vencedor de Gramado 2025, será tão bem recebido pelo público quanto o foi pelo júri oficial. O representante do Mato Grosso, além do Kikito de melhor filme, recebeu os troféus pelas qualidades de seu roteiro e de sua montagem (ambos de Bruno Bini) e melhor ator coadjuvante (Xamã).
O cineasta Bruno Bini, de 48 anos, enfrentará — a partir dessa quinta-feira, 9 de abril, data da estreia de “Cinco Tipos de Medo” — sua prova de fogo. O thriller cuiabano chega aos cinemas escorado em distribuidora de peso, a Downtown, de Bruno Wainer. A mesma que assinou a distribuição de outro thriller social e de ação, “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. Um êxito, que somou 3,2 milhões de ingressos.
Não se espera desempenho tão arrebatador da produção matogrossense, filmada na periferia de Cuiabá (nos bairros Jardim Colorado e Ribeirão do Lipa). Mas Bini e equipe sonham com um bom diálogo com o grande público. Até porque o filme constrói-se com adrenalina e ação, gênero que costuma mobilizar número significativo de espectadores. Vide os dois “Tropa de Elite” (o segundo vendeu mais de 11 milhões de ingressos) e o próprio “Cidade de Deus”.
Se conseguir aproximar-se da marca dos 500 mil espectadores, Bini, que acumulou funções de diretor, roteirista, montador e coprodutor (em parceria com a gaúcha Luciana Druzina), terá motivos para comemorar. Afinal, seu longa anterior – “Loop”, de 2019 – ficou no limbo (naquela faixa de filmes com menos de 10 mil espectadores).
“Cinco Tipos de Medo” reúne elenco coral, de imensa força e perfeita adequação de cada intérprete a seu personagem. Foram escalados atores profissionais e não-profissionais. No primeiro caso encontra-se a cuiabana Bella Campos, que depois do filme, interpretaria a alpinista social Maria de Fátima (no remake de “Vale Tudo”). A ela se somam as mineiras Bárbara Colen e Rejane Faria, os paulistas Rui Ricardo Diaz e Zé Carlos Machado, os cariocas João Vitor Silva, Xamã e Jonathan Haagensen. No elenco de apoio, aparece nome fundamental na história do cinema matogrossense, o ator e cineasta Amaury Tangará (na pele de um comandante da Polícia Militar). Que se soma ao paranaense Luiz Bertazzo e à gaúcha Mariana Catalane, intérprete de uma repórter de TV.
Entre os atores não-profissionais, destacam-se rappers e moradores dos bairros de Jardim Colorado e Ribeirão do Lipa. Cabe a eles interpretar integrantes da gangue de Sapinho (Xamã) e do grupo opositor, a gangue do Lipa. O elenco inteiro, do maior ao menor papel, rende bem. Ninguém destoa.
A exuberante Bárbara Colen nos proporciona verdadeiro show na pele da policial Luciana, em briga corporal com o traficante Sapinho. A luta, coreografada, resulta crível, pois a atriz enche a tela com seu corpo esguio, esculpido com longos braços e pernas, rosto anguloso e traços fortes. Deixa distante a (absurda) compreensão de que “brasileiro não sabe filmar brigas, nem bêbados, nem cenas de sexo”.
O filme começa enumerando os cinco medos que atormentam o ser humano e o fazem recorrer a reações instintivas e brutais. Medo da solidão, do fracasso (ficar sem dinheiro), do desconhecido (oprimido em lugar fechado), da perda de controle e, o maior de todos – o medo da morte.
A narrativa nos conduzirá a um hospital, onde a mãe do jovem músico Murilo (João Victor Silva) morre, vítima da epidemia da Covid 19. No local, o rapaz conhecerá a auxiliar de enfermagem Marlene (Bella Campos) e, instantaneamente, se interessará por ela. E ela por ele. Só que a moça vive relacionamento abusivo com o possessivo traficante Sapinho.
As histórias desse trio se cruzarão com as da capitã Luciana (Bárbara Colen), policial mergulhada em perturbador desejo de vingança, e de Ivan (Rui Ricardo Dias), advogado com intenções, também perturbadoras e ocultas.
Outras estórias vão entrelaçar-se com as dos cinco protagonistas. A de uma mãe, Dona Antônia (Rejane Faria), que vive em território comandado pela gangue de Sapinho, e que tudo fará para garantir a sobrevivência do filho, tentando afastá-lo do crime. Ela tem um vizinho, Régis (Zé Carlos Machado), que coleciona armas antigas.
Em seu terceiro trabalho com Bruno Bini, Jonathan Haagensen, o Cabeleira de “Cidade de Deus”, interpreta o policial Hugo, que atua na equipe de Luciana.
As histórias dessas pessoas comuns (um músico sonhador, uma auxiliar de enfermagem em emprego temporário, uma mãe em busca de segurança para o filho, um velho colecionador de armas, um advogado atormentado, alguns policiais e, claro, traficantes em suas contravenções cotidianas) comporão envolvente amálgama narrativo. Estas vidas, miúdas na aparência, parecem desconectadas. Mas o roteiro, cheio de paixão e fúria, os aproximará numa ciranda banhada em sangue. E pautada pela vingança.
A trama de Bruno Bini se arma como um quebra-cabeça. Há quem veja nela óbvia matriz: a de tantas séries policiais made in USA. O diretor-roteirista garantiu, em debate no Festival de Gramado, que encontrou suas histórias (“todas reais”) nas páginas sangrentas dos jornais cuiabanos. E, temos que admitir, ele soube aclimatar a gramática das badaladas séries de streaming, fontes de renovação da ficção televisiva norte-americana, à paisagem humana e física da periferia da capital mato-grossense.
Os mais exigentes, em especial aqueles que buscam a verossimilhança, estranharão a presença de um velho colecionador de armas em terreno conflagrado (bairro periférico de Cuiabá dominado por gangue dedicada ao tráfico de drogas) e a profusão de tiros providenciais que poupam os protagonistas. Sem esquecer a oniprença de celular manipulado por bandidos junto ao corpo de personagem de grande importância na trama.
Tais “liberdades narrativas” não suspenderão a crença do espectador no quebra-cabeça proposto pelo filme. E isso se deve à engenhosidade do roteiro. Bruno Bini mostrará, em cada sequência narrada durante uma hora e 50 minutos, ótimo domínio dos códigos do cinema de ação. Cenas de tiroteio e brigas violentíssimas serão muito bem filmadas.
“Cinco Tipos de Medo” enquadra-se naquele tipo de cinema que motiva o ator Wagner Moura: nem “cabeçudo”, nem “comercial-convencional”. E, sim, um cinema que se propõe a narrar uma boa história sempre interessado em dialogar com um público o mais amplo possível. Sem que, para atingir tal objetivo, tenha que menosprezar o espectador, recorrendo a banalizações ou escapismos.
Cinco Tipos de Medo
Brasil, Mato Grosso, 2026, 110 minutos
Direção, roteiro e montagem: Bruno Bini
Elenco: Bárbara Colen, Bella Campos, Rui Ricardo Diaz, Xamã, João Vitor Silva, Rejane Faria, Jonathan Haaggensen, Zé Carlos Machado, Luana Tanaka, Luiz Bertazzo, Rodrigo Fernandes, Beto Fauth, Amauri Tangará e Eloá Pimenta
Produção executiva: Luciana Druzina, Bruno Bini, Amanda Ruano
Fotografia: Ulisses Malta Jr.
Direção de arte: Pedro von Tiesenhausen
Trilha sonora original: Leo Henkin
Desenho de som: Kiko Ferraz e Ricardo Costa
Produção: Plano B Filmes, Druzina Content
Coprodução: Quanta
Distribuidora: Downtown Filmes
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