Chopin, o gênio do piano, é tema de cinebiografia realista, que soma criação musical e o martírio da tuberculose
Por Maria do Rosário Caetano
Fryderyk Chopin, nascido na Polônia e registrado como Fryderyk Francieszek Szopen, morreu cedo. Aos 39 anos, quando desfrutava de imenso reconhecimento artístico. A Medicina, porém, não dispunha dos recursos capazes de curar a tuberculose que abreviaria sua glória terrena. Partiu, pois, muito cedo, vítima do bacilo de Koch, assim como o tcheco Franz Kafka, aos 40, e os brasileiros Castro Alves, 24, e Noel Rosa, 26.
E por que dar tanta ênfase à tuberculose para introduzir “Chopin, uma Sonata em Paris”, estreia dessa quinta-feira, 28 de maio?
Porque dos seis longas-metragens ficcionais já realizados sobre o grande compositor e pianista nenhum deu tanto destaque ao mal que abreviou sua vida. Ao longo de 2h13, veremos Fryderyk Chopin tossir sangue como não víramos em nenhuma das outras versões de sua existência.
O cineasta Michal Kwieciński e seu roteirista Bartosz Janiszewski, ambos poloneses, construíram narrativa que está bem distante da realizada por seu conterrâneo Jerzy Antczak – “Chopin, Desejo de Amor” (2002). Neste filme, centrado no complicado relacionamento do pianista com a escritora francesa George Sand (pseudônimo masculino de Armandine Aurore Lucile Dupin), nos deparamos com um melodrama comme il faut. Vocacionado, pois, à soma de melodia e drama. Dramalhão até, pois o filho, já rapaz, da escritora morre de ciúmes da mãe e faz de tudo para destruir o relacionamento dela com o artista polonês.
O tom da narrativa de Antczak é grandiloquente e parece mais interessado em arrebatar o grande público, que nos tormentos físicos e nos processos de criação dos clássicos legados à posteridade por Chopin (“Noturnos”, “Fantasia-Improviso”, “Polonaise Heróica”, “Prelúdios” e “Estudos”).
Outra produção recente – o primeiro filme dedicado a Chopin foi realizado em 1927, portanto ainda na era silenciosa – veio da Inglaterra e assumiu tom de jocosa ironia. Afinal, optou pelas futilidades dos nobres que abrigavam o artista em suas imensas casas de campo, sem esquecer o tumultuado relacionamento de Chopin, interpretado pelo então galã Hugh Grant, com a escritora George Sand (a bela Judy Davis, em versão levada da breca).
“Impromptu” (“Improviso”), este é o título do filme britânico, foi dirigido por James Lapine. Entre nós, é conhecido como “George e Chopin”. Seus criadores preferiram destacar a vida mundana, duelos e faniquitos da nobreza ociosa (liderada pela cabeça-oca Duquesa D’Antan, interpretada por Emma Thompson).
Entre os comensais da Duquesa destacam-se, além de Franz Liszt (Julian Sands, de “Noites com Sol”, dos Taviani), o excessivo Jean-Pierre Mallefille, machão e ciumento (Georges Corraface), e um pintor de telas épicas, o grande Eugène Delacroix (Ralph Brown), aprontando todas.
O saltitante “Impromptu” pode ser definido como um vaudeville à moda britânica. E, nele, todo mundo se expressa no idioma de Shakespeare, embora a trama se passe, inteira, numa ajardinada e rica mansão campestre francesa.
Decerto, ao assistir a esses dois filmes, o roteirista Bartosz Janiszewski e o cineasta Michal Kwieciński tenham decidido realizar nova incursão, de corte realista, pela trajetória do célebre conterrâneo. E fazê-lo sem a espalhafatosa grandiloquência do primeiro caso e frivolidade do segundo.
“Uma Sonata em Paris” dá adeus ao farto topete (e ao inglês britânico) de Hugh Grant, trocando-o pela sobriedade do ator Eryk Kulm, polonês como Chopin. Para os papéis do austro-húngaro Franz Liszt (1811-1886) e da francesa George Sand (1804-1836), foram convocados os franceses Victor Meutelet e Josephine De La Baume. E mais: coube a Lambert Wilson, em participação especial, encarnar com fina elegância o Rei Louis Philippe, grande admirador de Chopin.
Kwieciński fez questão de realizar “Chopin, uma Sonata em Paris” em francês, com trechos em polonês (em especial quando o artista está em casa, aos cuidados de fiel ajudante e conterrâneo) e espanhol. O uso dos três idiomas está totalmente de acordo com a trama.
Fryderyk Szopen, filho de mãe polonesa e pai francês expatriado, transferiu-se para Paris, a capital cultural do mundo no século XIX, quando tinha 20 anos. E nunca mais regressou à sua terra natal.
O artista foi protegido pela nobreza que resgatara o país das mãos que haviam feito a Revolução Francesa, em 1789, e do mando imperial do general corso Napoleão Bonaparte. Nascido em fevereiro de 1810, Chopin morreria em Paris em outubro de 1849. Portanto, passou metade de sua vida no país natal e a outra metade no país adotivo. Foi sepultado no Cemitério Père-Lachaise, mas seu coração, por desejo dele, seria devolvido à Polônia.
“Chopin, Chopin”, nome original do filme de Michal Kwieciński, acompanha a trajetória do compositor, atendo-se ao processo de criação de suas célebres composições, sem esquecer os momentos difíceis. Apesar da saúde frágil, ele ministrava aulas particulares de piano a dezenas de discípulos. Viveu amizade (e rivalidade) com Liszt, outro exímio pianista, perdeu noiva polonesa (a família negou a mão da moça na hora derradeira, por saber que o compositor tinha tuberculose). Só George Sand, mulher esclarecida, sabia que o contágio pelo “mal do século” podia ser evitado. Por isso, passou quase dez anos (de 1838 a 1847) de sua vida envolvida com o compositor.
Extravagante, ousada e disputada por homens famosos (Prosper Mérimée, Alfred de Musset, entre outros), Sand tinha 34 anos quando conheceu Chopin, seis anos mais novo. Ela vivia numa imensa casa de campo, a Nohant, nos arredores de Paris. Deixava a propriedade, onde cresciam seus filhos Maurice e Solange, para assistir aos concertos de Chopin. E tudo faria para conquistá-lo.
Num dos momentos mais vibrantes do filme, o casal desfruta do sol e do calor da Ilha de Maiorca, na Espanha. Mas a população, ignorante, ao saber que o visitante era portador de tuberculose, tudo faria para expulsar o casal. Até que isso aconteça, veremos George Sand, com seus fartos cabelos negros, esbanjando vida e alegria, como se fosse a cigana Carmen, interpretada no cinema por Rita Haywhort.
A produção franco-polonesa soma bons atores, sustenta-se em roteiro denso, sem apego ao folhetinesco. Conta com direção de arte de grande força e capaz de recriar a Paris dos anos 1830 com esmero, mas sem exibicionismo. E, o que é melhor, equilibra a importância da música na vida de Chopin com seus amores, amizades e sofrimentos físicos. Sem esquecer de destacar as diferenças entre as performances de Liszt, visto no filme como virtuosista-exibicionista, e o polonês, mais profundo e contido.
Os melômanos não vão se arrepender de assistir a “Chopin, uma Sonata em Paris”. Poderão, até, buscar os filmes acima citados e, também, o hollywoodiano “À Noite Sonhamos” (“A Song to Remember”, Charles Vidor, 1945), e o franco-alemão “A Nota Azul” (“La Note Bleue”, 1991), que dedicou-se aos anos derradeiros do pianista. Já no terreno do documentário, há muitas outras realizações dedicadas à breve história de Fryderyk Chopin.
Um registro final: a versão hollywoodiana de Charles Vidor é inacreditável. Quem toma conta do filme é o professor de piano de Chopin, interpretado por Paul Muni. Cheio de trejeitos, e sem dar trégua ao espectador, ele adota registro humorístico. E comete todos os excessos possíveis, assumindo-se como comandante principal da trama. A ponto de transformar, sem pudor, a fantasia charle-vidoriana em vitrine de suas possibilidades como intérprete. Aquele que busca mais um Oscar (como o que conquistara em 1936, com “A História de Pasteur”). O exibicionista Paul Muni quase apaga o esforçado galã Cornel Wilde.
Chopin, uma Sonata em Paris | Chopin, Chopin
Polônia-França, 2025, 133 minutos
Direção: Michał Kwieciński
Roteiro: Bartosz Janiszewski
Fotografia: Michał Sobociński
Elenco: Eryk Kulm (Chopin), Victor Meutelet (Frans Liszt), Josephine De La Baume (George Sand), Lambert Wilson (Rei Louis Philippe)
Distribuição: Synapse
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