“Yellow Cake” soma ficção científica visionária, filme catástrofe e sátira ambientada em Picuí, no sertão paraibano
Foto: Tânia Maria © Duda Dalzoto
Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba (PR)
A atriz mineira Rejane Faria, de “Marte 1”, é a protagonista absoluta da ficção científica “Yellow Cake”, do pernambucano Tiago Melo, filme inaugural da décima-quinta edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. Ela interpreta Rúbia, uma cientista nuclear, que trabalha junto com outros pesquisadores, todos norte-americanos, na exploração de urânio. O grupo atua em Picuí, pequena cidade do sertão paraibano.
Outra atriz, a quase octogenária Tânia Maria, a Dona Sebastiana de “O Agente Secreto”, é responsável pelo segundo papel feminino do filme — o de Dona Rita, avó de Catita (Valmir do Côco). Ele, que já brilhara em “Azougue Nazaré”, primeiro longa de Tiago Melo, divide o principal papel masculino com Severino Dadá, montador de filmes de Nelson Pereira dos Santos, ator de “Tenda dos Milagres”, personagem do longa “O Cangaceiro da Moviola” e diretor de um curta (“A Nave de Mané Socó”) tão doidão e criativo quanto “Yellow Cake”.
Dadá interpreta o Senhor Nozinho dos Santos, um homem misterioso, cientista de extrato popular com traços fantasmagóricos. Afinal, cabe tudo na mistura de gêneros empreendida por Tiago, ao longo dos últimos dez anos. O tom é sci-fic, mas há boas doses de filme catástrofe, sátira e até comédia, principalmente nos momentos protagonizados pela irreverente Tânia Maria.
Registre-se que a atriz potiguar, que começou como figurante em “Bacurau” (e ganhou fama como Dona Sebastiana, em “O Agente Secreto”) tem imenso destaque na trama de “Yellow Cake”, esse ambicioso (e instigante) longa pernambucano, cuja estreia mundial aconteceu em janeiro último, no Festival de Roterdã, na Holanda.
Dona Rita, a personagem que deve consolidar a fama de Tânia Maria, é uma sertaneja picuiense. Ela vive com o neto Catita, garimpeiro da região, numa casa isolada. Caberá à artesã, e agora atriz, elevar o tom de irreverência e comédia do filme. Se o público se divertiu com as tiradas de Dona Sebastiana em “O Agente Secreto”, agora terá chances de divertir-se ainda mais. Afinal, a participação dela, se somados os minutos de tela, cresceu bastante.
A se julgar pela reação do público que lotou a Ópera de Arame curitibana, a sintonia se estabelecerá mais uma vez. Tânia Maria foi festejada e ovacionada pela plateia desde o momento em que seu nome foi anunciado. Ao subir ao palco, verificou-se mais uma saraivada de aplausos. Quando o filme começou, a galera percebeu que ela, mais uma vez, brilharia na telona e injetaria humor na narrativa. Tempo para isso ela teve. E de sobra. Tiago Melo e seus co-roteiristas escreveram nove (nove!) sequências para ela.
Pelo menos duas são de antologia. Numa delas, a melhor de todas, ela foi aplaudida com gosto pelo público curitibano. Sem nenhum acanhamento, Dona Rita, a personagem, constrói verdadeira ode ao cigarro. Em conversa com a cientista Rúbia, ela assegurará, tomada pelo humor e verve costumeiros, que “continuará fumando, pois tem 83 anos” e esse arraigado prazer de tantos anos não causara nenhum mal a ela.
Quem viu o festejado “Azougue Nazaré” (2018), filme que revelou Valmir do Côco (como ator de cinema) e tinha Jean-Claude Bernardet como um seus admiradores (do filme e de Valmir!), notará imensa transformação na trajetória do cineasta Tiago Melo. Não que ele tenha abandonado seu projeto estético, que segue inquieto e doidão. O que mudou foram suas condições de produção. No primeiro longa, o “Azougue”, o cineasta mergulhou no mundo do maracatu e dos cultos evangélicos, e fez um filme sedimentado na “cara e a coragem”. Como contou a produtora Carol Ferreira, “o primeiro longa do Tiago nasceu sem orçamento”.
— “Não foi nem um B.O., foi orçamento zero mesmo! Tudo foi acontecendo até o filme tornar-se realidade”.
Já “Yellow Cake” pode ser considerado, se comparado ao “Azougue”, uma superprodução. Graças a diversas parcerias, uma em especial, com a Cinemascópio, a badalada produtora de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. Outro cineasta, Aly Muritiba, também aparece nos créditos como produtor colaborador.
Tiago pôde contar com elenco “internacional” (atores como Alli Willow, Spencer Callahan, Wolfgang Pannek), grandes profissionais e técnicos brasileiros (muitos deles destaque nos créditos de “Bacurau” e “O Agente Secreto”). Caso do preparador de elenco Gabriel Domingues, que envolveu-se de tal forma com o novo filme, que passou a integrar a equipe de roteiristas. Para a trilha sonora, “Yellow Cake” contou com a usina sonora de O Grivo, vindo das Minas Gerais. E com direção de arte, figurinos e maquiagem elaboradas. E, claro, com muitos efeitos especiais.
Sem os milagres da tecnologia, seria impossível realizar uma ficção científica, mesmo que ambientada numa pequena cidade e em minas (verdadeiras cavernas) destinadas à exploração, por gringos ambiciosos, de metais nobres e terras raras. Carol Ferreira contou que “com a parceria da Quanta, empresa de ponta na área da finalização”, o filme pôde beneficiar-se “de tecnologia de alto nível”. Para em seguida, a todos surpreender, pois revelou o custo final do “Bolo Amarelo”: apenas R$ 3.700.000,00.
Um legítimo B.O. (filme de baixo orçamento) se comparado ao budget de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, que recebeu de uma única fonte (o banqueiro-presidiário Daniel Vorcaro) R$ 65.000.000,00. Ou seja, com tal orçamento, Tiago Melo conseguiria realizar 16 filmes no padrão da ficção científica “Yellow Cake”.
Durante o debate de seu segundo longa-metragem, o cineasta pernambucano justificou a adoção do título em língua inglesa, falou do elenco, que ele tem como “a alma” de sua narrativa, da construção do roteiro (que estruturou com vários parceiros) e de seus contatos com o pessoal da Fiocruz, em especial com Genilton Vieira, “especializado em fotografar o aedes aegypti”. Sim, o mosquito transmissor do vírus da dengue, da chikungunia e do Zika, que tem imensa importância na trama da ficção científica pernambucana.
Com a palavra, pois, Tiago Melo, um recifense de 42 anos, apaixonado por Picuí, pequeno município paraibano (18 mil habitantes) e espaço historicamente tomado pela busca de minerais raros. “Desde a Segunda Guerra Mundial” — garante o realizador —, “os norte-americanos, pelo menos é o que reza a lenda, garimparam no município parte do urânio usado no Projeto Manhattan, responsável pelas bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki”.
O TÍTULO INGLÊS
“Yellow Cake” — explica Tiago — “ou bolo amarelo é, em mineralogia, o nome dado ao concentrado de minério de urânio. Minhas primeiras pesquisas me familiarizaram com essa expressão. E descobri que ela é corrente entre os garimpeiros da região. Por isso, preservei-a no recorrente original. Tenho familiaridade e paixão pelo assunto, pois meu pai nasceu em Picuí. Eu nasci em Recife, mas a cidade sertaneja sempre fez parte da minha vida, a visito com imensa frequência. Realizei, com Antônio Carrilho, o documentário ‘Urânio Picuí’ (2012, 15 minutos), soma de tema nuclear à mineração em busca de metais raros. Ainda hoje ouço velhos garimpeiros repetirem expressões que ouviam dos gringos. Claro que eles não falam inglês, recriam novas sonoridades. Nem eu falo inglês”.
O DESAFIO DE REJANE
“Eu também não falo inglês”, contou a atriz. “Mas boa parte dos meus diálogos no filme se dão nesse idioma, pois Rúbia trabalha com cientistas norte-americanos. Me preparei bastante, pois não queria pagar mico de jeito nenhum. Contei com a imensa colaboração de meu filho, que é professor de inglês, e dos colegas de elenco, de expressão inglesa. E cuidamos, na pós-produção, para que tudo ficasse a contento”.
ELENCO ANGLO-SAXÃO E BRASILEIRO
“Cheguei a pensar em filmar com atores 100% brasileiros”, contou Tiago Melo. “Intérpretes daqui desempenhariam os papeis dos cientistas norte-americanos (afinal, como contou Carol Ferreira, “o orçamento inicial do filme era de apenas R$ 700 mil”). Mas todos me disseram que ficaria ridículo. Que seria possível mobilizar atores estadunidenses, radicados no Brasil e que são ótimos. Foi o que fizemos, quando ganhamos novos editais, todos de valor reduzido. A soma deles nos permitiu realizar essa ‘ficção científica picuiense’. O elenco inteiro me dá muita alegria. Rejane maravilhosa, uma pérola, foi uma alegria trabalhar com ela. Dona Tânia Maria, Valmir do Côco, Rosa Malagueta, o incrível Severino Dadá e moradores de Picuí e de Parelhas (esta uma cidade potiguar) só me trouxeram alegrias”.
ROTEIRO COM PESQUISA NA FIOCRUZ
“Fiz questão de pesquisar tudo sobre a história do mosquito da dengue”, contou o cineasta. “Fui à Fundação Oswaldo Cruz, conversei com cientistas e me aproximei, em especial, de Genilton Vieira. Ele é o grande fotógrafo do aedes aegypti. Como eu queria fazer um filme de monstros, precisa materializar a imagem monstruosa que atacaria Picuí. Ele, claro, me explicou que o ‘aedes’ não anda em bando. É solitário. Mas eu disse que tomaríamos uma ‘licença poética’. E ele nos cedeu fotos incríveis do mosquito, que vejo como o nosso King Kong. Tais fotos foram fundamentais para ‘Yellow Cake’”.
A DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA DE GUSTAVO PESSOA
Gustavo, responsável pelas imagens de “Yellow Cake” (e de “Azougue Nazaré”) contou que buscou, junto com Tiago Melo, a visualidade do novo filme. Aliás, um dos grandes trunfos do projeto. E, mesmo sendo uma ficção científica, gênero que aprecia planos abertos, cósmicos, fizeram questão de destacar rostos, vistos em closes. O público vai se divertir com os closes de Dona Rita (Tânia Maria), que depois de muitas picadas do “aedes” terá sua pele lacerada por grandes chagas. Trata-se, não podemos esquecer, de um ‘monster movie’, como Tiago Melo faz questão de lembrar. O cearense Ivo Lopes Araújo assina a fotografia adicional. O filme tem noturnas maravilhosas (utilitários norte-americanos vistos com seus faróis que brilham na escuridão) e explora com toque sensorial — potencializado pela poderosa trilha de O Grivo — as múltiplas cores dos minerais incrustados nas pedras.
NOS CINEMAS, COM LANÇAMENTO DA OLHAR
Paula Gomes, da Distribuidora Olhar, contou que o lançamento de “Yellow Cake” está previsto para o segundo semestre. Que o filme foi mostrado no Encontro de Pequenos e Médios Exibidores, no Panorama de Cinema da Bahia, e causou ótima impressão. De saída, garantiu circuito de lançamento em 60 salas espalhadas por dezenas de estados brasileiros, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. Um exibidor de Mossoró nos procurou e garantiu que repetirá, com “Yellow Cake”, o mesmo procedimento utilizado com “O Agente Secreto”. Levará a potiguar Dona Tânia Maria à cidade (de 280 mil habitantes) para que ela faça a devida apresentação do longa-metragem, seguida de conversa com o público. “O filme foi mostrado, recentemente (também em sessão fechada para exibidores) no Show de Inverno, em Campos do Jordão, e chamou atenção de muitos dos presentes. Estamos motivados a promover um belo lançamento. Aguardem”.
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