Veto de R$ 160 milhões expõe o exagero dos fundos eleitorais no Brasil digital

José Cruz/Agência Brasil.
O veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a cerca de R$ 160 milhões no Fundo Partidário, durante a sanção da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, reacendeu um debate que o Brasil insiste em empurrar para debaixo do tapete: faz sentido manter fundos bilionários para financiar partidos e campanhas em plena era digital?
À primeira vista, o valor vetado parece expressivo. Mas, quando colocado em perspectiva, ele se transforma quase em detalhe. O mesmo Orçamento que discute esse corte convive com um Fundo Eleitoral estimado em R$ 4,9 bilhões para as eleições de 2026. É aí que mora o verdadeiro problema.
Dois fundos, um mesmo objetivo
O sistema brasileiro mantém dois grandes cofres públicos para alimentar a política eleitoral.
O Fundo Partidário banca o funcionamento cotidiano dos partidos: estrutura, pessoal, despesas administrativas e parte das atividades políticas. Já o Fundo Eleitoral, criado após a proibição das doações empresariais, é destinado exclusivamente às campanhas.
Na prática, são dois instrumentos diferentes financiando o mesmo objetivo final: eleger políticos e manter máquinas partidárias operando. E ambos são abastecidos com dinheiro do contribuinte.
O veto de R$ 160 milhões pode até soar como gesto de responsabilidade fiscal, mas ele perde relevância quando se observa o quadro completo. O elefante na sala não está no Fundo Partidário, está no Fundão.
- Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!
A política virou campanha permanente
O argumento tradicional para justificar cifras tão elevadas sempre foi o custo das campanhas. Mas esse raciocínio ficou velho.
Hoje, deputados e senadores vivem em campanha permanente, impulsionados por redes sociais, vídeos curtos, transmissões ao vivo, polêmicas calculadas, frases de efeito e até “piadinhas” estrategicamente pensadas para viralizar. A vitrine política está aberta 24 horas por dia, durante os quatro anos de mandato.
Nunca foi tão barato alcançar milhões de pessoas. Nunca foi tão fácil construir imagem, atacar adversários ou mobilizar seguidores. Ainda assim, o sistema insiste em tratar eleição como se estivéssemos nos anos 1990, dependentes de santinhos, carros de som e grandes estruturas físicas.
A pergunta é simples e incômoda: se a tecnologia reduziu drasticamente o custo de visibilidade, por que o financiamento público só cresce?
O teste político do veto
O veto presidencial ainda será analisado pelo Congresso. Deputados e senadores podem derrubá-lo, se assim desejarem. A votação será, mais do que técnica, simbólica.
Quem votar pela derrubada estará assumindo publicamente que considera legítimo ampliar recursos partidários em um país que discute ajuste fiscal, carga tributária elevada e serviços públicos precários. É um teste de coerência, e de coragem.
Menos fundo, mais controle
O debate não deveria ser ideológico, mas pragmático. Se o financiamento público continuar existindo, ele precisa mudar de lógica:
- Teto rígido para os fundos, sem crescimento real automático.
- Transparência em tempo real, com prestação de contas acessível ao cidadão comum.
- Critérios mais duros de desempenho, reduzindo recursos para partidos sem representatividade real.
- Incentivo à doação de pessoa física, rastreável e transparente, diminuindo a dependência do Tesouro.
O veto de R$ 160 milhões é um gesto. Mas, sozinho, ele não resolve o problema. O Brasil precisa decidir se quer um sistema político compatível com o século XXI ou se continuará financiando, a peso de ouro, uma estrutura que já não se justifica.
No país da internet onipresente e da campanha permanente, o que está em jogo não é apenas dinheiro público, é o respeito com quem paga a conta.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
O post Veto de R$ 160 milhões expõe o exagero dos fundos eleitorais no Brasil digital apareceu primeiro em Canal Rural.
Conteúdo importado automaticamente pelo HOST Portal News
🔔 Clique no link, entre em nossa comunidade no WhatsApp do Guia Lacerda e receba notícias em tempo real!
