“Águias da República”, fecho da Trilogia do Cairo, chega aos cinemas com explosiva mistura de drama e thriller político
Por Maria do Rosário Caetano
O cineasta sueco, de origem egípcia, Tarik Saleh, completa com “Águias da República” – estreia dessa quinta-feira nos cinemas brasileiros – sua Trilogia do Cairo. Primeiro, ele realizou “Incidente no Nilo Hilton”, depois o impressionante “Garotos do Céu”. Os três filmes foram apresentados na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e lançados no circuito de arte brasileiro.
“Águias da República” participou da disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio do ano passado, e seu protagonista – o ator Fares Fares – desfrutou da condição de favorito ao prêmio em sua categoria, até ser derrotado pelo brasileiro Wagner Moura.
O jornal Le Parisien fez questão de lembrar que, “mais uma vez, a atuação de Fares Fares, num papel sempre à beira do abismo, é impressionante”. Para concluir: “que ator fabuloso”.
O filme foi indicado pela Suécia para disputar vaga no Oscar de melhor produção internacional. Apesar de suas muitas qualidades, “Águias da República” não entrou na lista dos 15 semifinalistas. Em compensação, lidera as indicações ao Guldbagge Awards (Besouro de Ouro), o Oscar do país de Ingmar Bergman e Bo Widerberg. O Instituto Sueco do Cinema, responsável pela premiação, registra onze indicações para o thriller político de Saleh, sendo três delas as de melhor filme, diretor e ator protagonista.
O engenhoso roteiro de “Águias da República” mistura gêneros como o drama, a sátira política e o suspense. E se constrói-se, metalinguisticamente, como um filme dentro do filme. Afinal, seu protagonista, George Fahmy (interpretado por Fares Fares) é, por profissão, ator, dono de imenso carisma e gigantesca popularidade. Ele será convocado a interpretar o governante do país, que chegou ao poder depois de comandar golpe militar.
A velha nação afro-árabe, terra dos faraós, vive, desde 2013, sob regime militar-autoritário. Para melhorar sua imagem interna e externa, os mandatários da Cultura (também militares) decidem escalar — na ficção de Saleh — o astro George Fahmy para estrelar épico destinado a glorificar o presidente (o General Abdel Fattah el-Sissi). O ator não consegue safar-se do convite. Acabará, por isso, enredado em tramas palacianas. Será obrigado a que conviver com a entourage do presidente. Para tornar tudo ainda mais complicado, ele acabará envolvendo-se com uma femme-fatale. A bela mulher é marcada por certa fragilidade. E capaz de tornar a vida do ator ainda mais difícil. Afinal, ela é a esposa do general responsável pela supervisão do filme dentro do filme. Do épico de encomenda.
Detalhe importante: Fares Fares é libanês e vive na Suécia, onde trabalha com Tarik Saleh. O que nos leva a indagar: “Águias da República” é um filme egípcio ou sueco? O que ele tem em comum com “Foi Apenas um Acidente”, o filme “francês” de Jafar Panahi?
Bem, o representante da França no Oscar, um dos 15 pré-finalistas (e com imensas chances de integrar a lista de finalistas) é um filme falado em farsi, ambientado no Irã, com história e atores iranianos. E seu diretor é persa até a medula. Toda sua obra foi concebida e realizada (às claras ou clandestinamente) em seu país de origem. De francês, “Foi Apenas um Acidente” tem apenas o dinheiro.
O caso de “Águias da República” é mais nuançado. Tarik Saleh nasceu em Estocolmo, capital da Súecia, há 53 anos, e lá fez seus primeiros filmes. De início, animações, depois documentários – um deles sobre Che Guevara – até entrar na ficção e chegar aos mais importantes festivais internacionais com sua Trilogia do Cairo.
Fares Fares, de 52 anos, está nos elencos dos três filmes cairotas de Tarik Saleh. Que são falados em árabe, tematizam a história político-social-religiosa da grande nação árabe e reúnem atores da África árabe.
Se o Egito vive sob governo ditatorial, como é que Saleh conseguiu realizar, lá, um longa-metragem tão crítico, sátira tão feroz?
A resposta tem a ver com os mistérios e possibilidades do cinema. O Egito de “Águias da República” foi recriado em Istambul, na Turquia, e em estúdios em Gotemburgo, na Suécia. E com um fato concreto: o diretor e roteirista Saleh não é bem visto no país de seus ancestrais. Consta que, em 2015, ele foi expulso do Egito justo pelo Governo do atual presidente, o que é retratado no filme, Fattah el-Sisi.
Cidadão sueco, portanto vivendo em uma república nórdica e democrática, Tarik Saleh não enfrenta problemas tão intrincados quanto os enfrentados por Jafar Panahi, um iraniano sem planos de residir fora de seu país natal.
O cinema egípcio viveu, nas décadas de 1940/50/60, sua era de ouro, tornando-se o centro de irradiação de imagens do mundo árabe. Sua indústria cinematográfica transformou-se na segunda força econômica do país, perdendo apenas para o algodão. Ainda hoje, o país conta com uma indústria cinematográfica forte (e market share dos mais positivos – 70% do mercado interno). E ainda carrega a fama de “Hollywood árabe”. Por isso, as autoridades se preocupam tanto com o que filmam (e como filmam) seus cineastas.
El-Sisi, tão logo chegou ao poder, decidiu que o Exército assumiria o controle da indústria cinematográfica egípcia. As autoridades culturais, com desenvoltura, pautaram série de televisão que servisse como propaganda da ascensão ao poder do líder militar. Tudo isso serviu de inspiração ao roteiro de “Águias da República”. O filme do realizador sueco-egípcio não chegou, claro, ao circuito exibidor da “Hollywood árabe”.
Além das tramas que desvelam os desmandos do governo entronizado por golpe de Estado, “Águias da República” não deixa de ser um tributo à Era de Ouro do cinema egípcio, aquele que revelou o casal de astros Faten Hamama e Omar Shariff. Ela seguiu fiel à produção de seu país e participou de mais de 100 filmes. Ele tornou-se um astro do cinema internacional (“Lawrence da Arábia”) e figura do jet set.
Águias da República | Eagles of the Republic
Drama-thriller, Suécia, França e Dinamarca, 2025, 129 minutos, 14 anos
Direção e roteiro: Tarik Saleh
Elenco: Fares Fares (George Fahmy), Lyna Khoudri (Donya), Zineb Triki (Suzanne), Amr Waked (Dr. Manssour), Cherien Dabis (Rula), Sherwan Haji (Yasser Islam), Donia Massoud (esposa de George), Nael Ali (General, Hassan El Sayed (bispo coopta) Suhaib Naswan (Ramy).
Fotografia: Pierre Aïm, AFC
Montagem: Theis Schmidt
Trilha sonora: Alexandre Desplat
Direção de arte: Roger Rosenberg
Figurino: Virginie Montel
Efeitos visuais: Peter Hjorth
Som: Hans Møller
Produção: Linus Stöhr Torell, Johan Lindstrom, Linda Mutawi, Alexandre Mallet-Guy
Distribuição: Imovision
FILMOGRAFIA
Tarik Saleh
Diretor, roteirista e artista visual de origem egípcia, nascido em Estocolmo, na Suécia, 1972. O cineasta iniciou sua carreira artística como grafiteiro. Depois, estreou no cinema com curtas de animação e prosseguiu no documentário. Seus últimos filmes são obras ficcionais.
2025 – “Águias da República”
2022 – “Garoto dos Céus”
2022 – “Contrato Perigoso”
2017 – “O Incidente no Nilo Hilton”
2014 – “Tommy”
2009 – “Metropia”
2005 – “Gitmo – New Rules of War” (sobre a Prisão de Guantânamo no pós 11 de Setembro), em parceria com Erik Gandini
2001 – “Sacrificio, Who Betrayed Che Guevara?” (Sacrifício, Quem Traiu Che Guevara?), em parceria com Erik Gandini
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