Por que nem todos estão felizes com o acordo Mercosul-UE

Após 25 anos de idas, vindas e versões, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente foi fechado. No papel, o tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, reunindo mais de 700 milhões de consumidores e cerca de 20% do PIB global. Na prática, porém, o clima está longe de ser de comemoração geral.
A assinatura formal está prevista para este sábado, mas o caminho até a implementação segue cheio de obstáculos, e não são poucos. A resistência mais visível vem da França, onde agricultores protestam contra o impacto do acordo sobre o setor agropecuário europeu, especialmente em carnes, aves e açúcar.
A política ainda pode travar o acordo
Segundo analistas do ING, a aprovação política do tratado ainda é incerta. Para viabilizar o fechamento, a União Europeia incluiu salvaguardas ambientais e concessões aos agricultores, o que garantiu apoio suficiente entre os países-membros, mesmo sem o aval francês.
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O problema é que a assinatura não encerra o processo. O texto ainda precisa passar pelo Parlamento Europeu, onde há risco de atrasos. Há, inclusive, a possibilidade de questionamentos jurídicos que levem o acordo à Corte de Justiça da UE, o que poderia congelar tudo por até 18 meses. Depois disso, ainda será necessária a ratificação pelos 27 Estados-membros, um rito que pode levar anos.
Ou seja: o acordo nasceu, mas ainda não anda sozinho.
Ganhos econômicos existem, mas são modestos
No campo econômico, o tratado prevê a eliminação de tarifas sobre cerca de 91% do comércio bilateral, o que pode gerar uma economia estimada em US$ 4 bilhões ao longo do tempo. Ainda assim, os impactos macroeconômicos são limitados.
As projeções indicam que o PIB da União Europeia pode crescer apenas 0,1% até 2032, enquanto o do Mercosul teria avanço de 0,3%. Além disso, os ganhos não serão distribuídos de forma homogênea. Setores como o automotivo europeu e exportadores de produtos de maior valor agregado tendem a se beneficiar mais, enquanto produtores rurais europeus enxergam o acordo como ameaça direta.
Mais geopolítica do que comércio
Para os analistas, o verdadeiro peso do acordo está menos no comércio imediato e mais na geopolítica. Ao se aproximar do Mercosul, a União Europeia busca diversificar parceiros, reduzir dependências dos Estados Unidos e da China e garantir acesso a matérias-primas estratégicas como lítio, nióbio e grafite, essenciais para a transição energética.
Nesse contexto, o acordo funciona como uma peça do tabuleiro global. Ele reforça a autonomia estratégica europeia, reposiciona o bloco na disputa por recursos críticos e devolve à UE algum protagonismo no comércio internacional.
Em resumo: o acordo Mercosul–UE é histórico, relevante e cheio de potencial. Mas, antes de virar realidade no campo e na indústria, ainda precisa vencer a política, o protecionismo e a burocracia europeia. E isso, como o próprio histórico mostra, costuma levar tempo.
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