“O Agente Secreto” conquista quatro vagas no Oscar

“O Agente Secreto” conquista quatro vagas no Oscar

Foto: “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho © Victor Jucá

Por Maria do Rosário Caetano

O Brasil recebe, pela segunda vez, quatro indicações ao Oscar. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, repetiu feito de “Cidade de Deus” e cravou o mesmo número de categorias. Mas com um “plus”: entrou na lista principal, a de “melhor filme”, ao lado de pesos-pesados de Hollywood, como os recordistas de indicações “Pecadores”, de Ray Coogler, (16, recorde histórico) e “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (13).

“O Agente Secreto” concorre, ainda, a melhor filme internacional, melhor ator (o baiano Wagner Moura, de Rodelas para o mundo!) e, alvíssaras, a melhor casting (direção de elenco). Os associados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood reconheceram, para essa nova categoria, a fascinante alquimia obtida por KMF e seu diretor de elenco, Gabriel Domingues.

O casting de “O Agente Secreto” é, mesmo, um milagre nordestino-brasileiro. Desde “Cidade de Deus”, não se via nada parecido. Atores famosos, como o próprio Wagner, Maria Fernanda Cândido e Gabriel Leone somam-se a rostos os mais diversos (pretos, castanhos e brancos, alguns com traços indígenas marcantes, caso do potiguar Kaiony Venâncio). E, no poderoso mostruário de nossa variedade de rostos e cores, veremos Tânia Maria, a descolada Dona Sebastiana, o incrível Carlos Francisco, os impressionantes Robério Diógenes (gente, o que é esse delegado cheio de safadeza?!) e o volumoso Joalisson Cunha (o frentista do posto de gasolina).

“Apocalypse nos Trópicos”, de Petra Costa, longa documental 100% brasileiro, e “Yanuni”, de Richard Ladkani, que uniu uma verdadeira ONU (Áustria, EUA, Canadá, Alemanha, Brasil) para estruturar-se, com genuíno DNA amazônico, ficaram de fora. O mesmo aconteceu com o fascinante curta-metragem “Amarela”, de André Hayato Saito. Mas os três títulos fizeram bonito ao chegar à lista dos quinze semifinalistas!

O fotógrafo brasileiro Adolpho Veloso conseguiu destacar-se em categoria de alta competitividade. É um dos cinco finalistas em sua categoria. Por seu vigoroso trabalho no fascinante “Sonhos de Trem”, épico banhado em dores intimistas. Diretor de fotografia e filme brilham juntos. Produção de médio orçamento, ficcional, mas escorada em base documental, o longa de Clint Bentley somou quatro indicações. A melhor filme, inclusive. Também roteiro adaptado e canção original.

Três produções figuravam na história de Hollywood como recordistas de indicações — “A Malvada”, “Titanic” e La La Land”. Era corrente a percepção que o afro-americano “Pecadores” e o adrenalinado “Uma Batalha Atrás da Outra” poderiam empatar ou superar a trinca histórica. Até porque uma nova categoria fôra criada pela Academia (melhor casting/direção de elenco). Pois o inventivo “Pecadores” cravou 16 vagas: 14 mais “Casting” e uma de lambujem! Arrasou.

Merece tamanho reconhecimento?

Sim. Trata-se de um inventivo híbrido de muitos gêneros, com predominância do terror vampiresco. Mas tem história (roteiro que dialoga com o recorrente ‘pacto da encruzilhada’ de grandes guitarristas e violeiros, no nosso caso), formidável elenco, metáforas instigantes e pulsão renovadora. Junto com “A Hora do Mal” (“Weapons”), que aparece como finalista na categoria de atriz coadjuvante, forma a mais instigante dobradinha do cinema de horror (made in USA e contemporâneo).

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“Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson

“Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, provou sua força. Não chegou a 14 indicações, mas colou-se à marca (13). Pode sagrar-se o grande vencedor do ano, se não for atropelado pelos “pecadores” (e acabar vítima do pacto da encruzilhada).

O filme de PTA estabelece fina sintonia com nossos tempos insanos, conturbados principalmente pelo “homem laranja”, comandante da maior e mais armada nação do mundo. A perseguição aos imigrantes é a peça de resistência do filme. E a presença de um sinistro e hilário supremacista branco (Sean Penn, em grande estilo) fica grudada na nossa memória. Como outrora ficara o vilão-demente de Javier Bardem no oscarizado “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Detalhe, o militar anglo-saxão-alucinado de Sean Penn não resiste a uma beldade afro-americana. Sofre de ‘paudurecência’.

O desempenho do norueguês “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, foi formidável: nove indicações. É, não há dúvida, o grande rival de nosso “Agente Secreto”. Até porque o iraniano “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi, que concorre sob bandeira francesa, reduziu-se a duas indicações (filme internacional e roteiro original).

Mesmo caso do espanhol “Sirât”, de Oliver Laxe. Este filme tinha cinco pré-indicações ao Oscar. Mas só obteve vaga entre os estrangeiros e som (categoria para a qual, se justiça houver, já está eleito).

O tunisiano “A Voz de Hindi Rajab”, de Kaouther Ben Hania, só recebeu uma indicação. Representa a força feminina e africana na categoria de melhor filme internacional. Sem esquecer o impacto de seu tema — a luta do povo palestino por sua gente, solo e história.

Com o mesmo número de indicações de “Valor Sentimental” destacam-se “Frankenstein”, de Guillermo del Toro, e “Marty Supreme”, de Josh Safdie. O primeiro, junto com “F1”, é o queridinho dos Produtores (categoria peso-pesado em Hollywood) e o segundo conquistou forte aderência junto aos colegas, em especial a guilda dos Atores. Tudo leva a crer que seu protagonista, Timothée Chalamet, será a pedra no sapato de Wagner Moura. O Oscar não resiste (nunca resistiu) a composições bem-elaboradas de tipos. Rende-se, encantado, a ator bonito que enfeia-se para dar vida a alguém em tudo oposto à própria imagem e persona. Não resiste a um magro que engorda 20 quilos (ou mais) em nome da arte etc. etc.

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, o superestimado longa de Chloé Zhao, recebeu oito indicações. Típico filme que os franceses gostam de colocar na gaveta “cinéma de qualité”, ele vem comovendo parte da crítica e, principalmente, do público. E pelo menos um Oscar levará: o de melhor atriz para a irlandesa Jessie Bückler, de 36 anos. Ela interpreta a esposa do bardo William Shakespeare, nome máximo da dramaturgia universal.

A Revista de CINEMA já conferiu três dos cinco finalistas a melhor longa documental: o franco-favorito “A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir, disponível na Netflix, realmente um filme impressionante;
“Embaixo da Luz de Neon”, de Ryan White (Apple TV), um sólido exemplo de como realizar, sem proselitismo, um aliciante filme sobre amores homoafetivos; e “Alabama – Presos do Sistema”, de Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman (HBO), que tem seus valores. E semelhanças com “O Prisioneiro da Grade de Ferro”, de Paulo Sacramento. Só que o nosso filme, vencedor do Festival É Tudo Verdade, anos atrás, é muito melhor, mais criativo e ousado.

Confira abaixo a lista dos concorrentes:

MELHOR FILME

. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (Brasil)
. “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Anderson Thomas (EUA)
. “Pecadores”, de Ryan Coogler (EUA)
. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, de Chloé Zhao (EUA)
. “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega)
. “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (EUA)
. “Marty Supreme”, de Josh Safdie (EUA)
. “Sonhos de Trem”, de Clint Bentley (EUA)
. “Bugonia”, de Yorgos Lanthimos (Reino Unido)
. “F1”, de Joseph Kosinski (EUA)

MELHOR DIREÇÃO

. Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
. Ray Coogler (Pecadores)
. Chloé Zhao (“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”)
. Joachim Trier (Valor Sentimental)
. Josh Safdie (Marty Supreme)

MELHOR FILME INTERNACIONAL

. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (Brasil)
. “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi (França)
. “Sîrat”, de Oliver Laxe (Espanha)
. “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega)
. “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania (Tunísia)

MELHOR LONGA DOCUMENTAL

. “A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir (EUA) – Netflix
. “Embaixo da Luz de Neon”, de Ryan White (EUA) – Apple TV
. “Alabama – Presos do Sistema”, de Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman (HBO)
. “Cutting Through Rocks”, de Sara Khaki e Mohammadreza Eyni (Irã, Catar, Chile, Alemanha, Países Baixos e EUA)
. “Mr. Nobody Against Putin”, de David Borenstein e Pasha Talankin (Ucrânia). Netflix

MELHOR LONGA DE ANIMAÇÃO

. “Arco”
. “Elio”
. “Guerreiras do K-pop”
. “A Pequena Amélie”
. “Zootopia 2”

MELHOR ATRIZ

. Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
. Renate Reinsve (Valor Sentimental)
. Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria)
. Emma Stone (Bugônia)
. Kate Hudson (Song Sung Blue)

MELHOR ATOR

. Wagner Moura (O Agente Secreto)
. Timothée Chalamet (Marty Supremy)
. Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
. Michael B. Jordan (Pecadores)
. Ethan Hawke (Blue Moon)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

. Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
. Wunmi Mosaku (Pecadores)
. Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
. Elle Fanning (Valor Sentimental)
. Amy Madigan (A Hora do Mal)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

. Stellan Skarsgard (Valor Sentimental)
. Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
. Benicio del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
. Delroy Lindo (Pecadores)
. Jacob Elordi (Frankenstein)

MELHOR CASTING (direção de elenco)

. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (Brasil)
. “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Anderson Thomas (EUA)
. “Marty Supreme”, de Josh Safdie (EUA)
. “Pecadores”, de Ryan Coogler (EUA)
. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, de Chloé Zoe (EUA)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

. Ryan Coogler (Pecadores)
. Joachim Trier e Eskil Voght (Valor Sentimental)
. Ronald Bronstein e Josh Safdir (Marty Supreme)
. Jafar Panahi (Foi Apenas um Acidente)
. Robert Kaplow (Blue Moon)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

. Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
. Clint Bentley e Greg Kwedar (Sonhos de Trem)
. Chloé Zhao e Maggie O’Farrel (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
. Will Tracy (Bugônia)
. Guillermo del Toro (Frankenstein)

MELHOR FOTOGRAFIA

. Adolpho Veloso (Sonhos de Trem)
. Michael Bauman (Uma Batalha Após a Outra)
. Autumn Dural Arkapaw (Pecadores)
. Dan Lausten (Frankenstein)
. Faróis Khondji (Marty Supreme)

MELHOR TRILHA SONORA

. “Uma Batalha Após a Outra”
. “Pecadores”
. “Frankenstein”
. “Hamnet, A Vida Antes de Hamlet”
. “Bugônia”

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

. “I Lied To You” (“Pecadores”)
. “Train Dreams” ( “Sonhos de Trem”)
. “Sweet Dreams Of Joy” (“Viva Verdi!”)
. “Golden” (“Guerreiras do KPop”)
. “Dear Me” (“Diane Warren: Relentless”)

MELHOR SOM

. “Sirât”, de Oliver Laxe
. “Uma Batalha Após a Outra”
. “Pecadores”
. “F1”
. “Frankenstein”

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

. “Frankenstein”
. “Hamnet”
. “Marty Supreme”
. “Uma Batalha Após A Outra”
. “Pecadores”

MELHOR MONTAGEM

. “F-1”
. “Marty Supreme”
. “Uma Batalha Após A Outra”
. “Valor Sentimental”
. “Pecadores”

MELHOR EFEITOS ESPECIAIS

. “Pecadores”
. “Avatar: Fire and Ash”
. “F1”
. “O Ônibus Perdido”
. “Jurassic World Recomeço”

MELHOR FIGURINO

. “Avatar: Fogo e Cinzas”
. “Frankenstein”
. “Hamnet”
. “Marty Supreme”
. “Pecadores”

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

. “Frankenstein”
. “Kokuho”
. “Pecadores”
. “Coração de Lutador: The Smashing Machine”
. “A Meia Irmã Feia”

MELHOR CURTA-METRAGEM LIVE ACTION

. “Butcher’s Stain”, de Levindon-Blount e Oron Caspi
. “The Singers”, de Sam Davis e Jack Piatt
. “Two People Exchanging Saliva”, de Alexandre Singh e Natalie Musteata
. “Jane Austen’s Period Drama”, de Julia Aks e Steve Pinder
. “A Friend of Dorothy”, de Lee Knights e James Dean

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

. “The Girl Who Cried Pearls”, de Cris Lavis e M. Szcerbowski
. “Butterfly”, de Florence Miaihe e Ron Dyens
. “Retirement Plan”, de John Kelly e Andrew Freedman
. “The Three Sisters”, de Konstatin Bronzit
. “Forevergreen”, de Nathan Engelhardt e Jeremey Spears

MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTAL

. “Perfectly a Strangeness”, de Alison McAlpine
. “All the Empty Rooms”, de Joshua Seftel e Conall Jones
. “Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud”, de Craig Renaud e Juan Arredondo
. “The Devil Is Busy”, de Christian Hampton e Geeta Grandbhir
. “Children no Moore: Were and Are Gone”, de Holland Medalia e Sheila Nevins


Fonte: https://revistadecinema.com.br/2026/01/o-agente-secreto-conquista-quatro-vagas-no-oscar/

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