“A Voz de Hind Rajab”, concorrente ao Oscar internacional, chama atenção para crianças palestinas mortas nos bombardeios de Gaza
Por Maria do Rosário Caetano
“A Voz de Hind Rajab”, longa ficcional da tunisiana Kaouther Ben Hania, um dos cinco concorrentes ao Oscar internacional — o único dirigido por uma mulher — chega ao circuito exibidor nessa quinta-feira, 29 de janeiro.
O filme, de alma palestina, causou furor no Festival de Veneza, em setembro do ano passado. Foi aplaudido de pé por longos minutos. Houve quem chegasse a assegurar que as palmas haviam durado 20 minutos. Haja resistência para tantos minutos de pé e, ainda por cima, arrancando sons entusiásticos das mãos.
Duração à parte, “A Voz de Hind Rajab” causou, realmente, sensação poucas vezes vista num festival. Multiplicou-se, por isso, na imprensa especializada, a intuição de que o filme de Kaouther Ben Hania — duas vezes finalista ao Oscar (com o documentário “As Quatro Filhas de Olfa” e a ficção “O Homem que Vendeu sua Pele”) — ganharia o Leão de Ouro. Acabou preterido pelo norte-americano “Pai, Mãe, Irmã, Irmão”, de Jim Jarmusch. Mas o júri atribuiu ao filme tunisiano a segunda láurea veneziana, o Leão de Prata.
A trama de “A Voz de Hind Rajab” se baseia em fatos reais. No dia 29 de janeiro de 2024, portanto há exatos dois anos, Hind Rajab Hamada, criança palestina de apenas cinco anos, fugia com familiares (tio, tia e quatro primos) num carro. O veículo foi bombardeado por tanque da Israel de Benjamin Netanyahu. Todos os ocupantes, exceto Hind Rajab, foram mortos.
Cercada pelos parentes ensanguentados, a menina usou o celular e entrou em contato com um tio que vivia na Alemanha. Este, por sua vez, estabeleceu chamada-ponte compartilhada com o Crescente Vermelho (correspondente da Cruz Vermelha no Oriente Médio) e mobilizou os paramédicos. A instituição, de seu edifício-sede em Ramallah (na Cisjordânia, a 80 km de Gaza) gravou os apelos da criança.
Primeiro, os atendentes tentaram acalmá-la. E, de início, pensaram duas vezes antes de mandar uma ambulância para socorrê-la, devido à obrigação de seguir rotas determinadas. Caso contrário, novas vidas (a dos Socorristas) seriam ceifadas. Finalmente uma ambulância parte para tentar resgatar a menina, mas é atacada pelo exército de Israel.
Em 10 de fevereiro, doze dias depois da morte dos parentes de Hind Rajab, os corpos foram encontrados. Da pequena Hind Rajab, também vítima do conflito (como milhares de outras crianças palestinas), só restou a voz gravada pela equipe do Crescente Vermelho. E fotos dos dias felizes guardadas em arquivos da família.
Para construir seu filme, uma ficção com elementos documentais, Kaouther Ben Hania, de 48 anos, mobilizou atores profissionais da Palestina. Eles representam os paramédicos e socorristas. E utilizou as gravações reais, registros dos apelos da criança. Ela diz frases como “venham me buscar, estão atirando!” ou “Sarah não pode falar. Tem sangue, está dormindo”.
A diretora utilizou, ainda, em sua sintética narrativa, vídeos reais de experiências vividas pelos paramédicos do Crescente Vermelho. Tais imagens aparecem nos celulares desses profissionais que não medem esforços para salvar vidas. Mas nem sempre conseguem.
O filme de Kaouther Ben Hania é importante apenas por seu tema mobilizador? Ou a cineasta conseguiu construir narrativa elaborada e capaz de nos levar a refletir sobre as consequências da guerra (que Israel move contra a Palestina) na vida de populações civis?
“A Voz de Hind Rajab” soma narrativa enxuta, não há apelo excessivo aos sentimentos, nem exagero no uso da trilha sonora. A ausência da imagem da menina Hind Rajab potencializa sua voz. Só veremos a imagem da criança quando o tio, que vive na Alemanha, enviar fotos capazes de ajudar na identificação dos adultos e crianças presentes no carro atingido pelas bombas israelenses.
Ao longo de hora e meia, o espectador construirá dolorosa memória do que se passa em Gaza. A voz de Hind Rajab servirá, então, como trágica forma de singularização de tantas vidas interrompidas. Vidas de crianças inocentes, vitimadas por terríveis bombardeios. A pequena Hind deixou, graças ao filme de Kaouther Ben Hania, de ser uma estatística anônima, transformando-se — assim e dolorosamente — em símbolo dos infantes, vítimas maiores da tragédia ambientada no Oriente Médio.
A Voz de Hind Rajab | Sawt Hind Rajab
Tunísia, 2025, 89 minutos
Direção e roteiro: Kaouther Ben Hania
Elenco: Amer Hiehel (Mahfi), Clara Khouri (Nisreen), Motaz Malhees (Omar), Saja Kilani (Rana)
Fotografia: Juan Sarmiento G.
Montagem: Qutaiba Barhamji, Máxime Mathis, Gwennolé Le Borgne e Kaouther Ben Hania
Trilha sonora: Amine Bouhafa
Produção: Nádia Cheikrouha, Odessa Rae e James Wilson, com apoio de Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara e Alfonso Cuaron
Distribuição: Synapse
FILMOGRAFIA
A atriz, cineasta e roteirista Kaouther Ben Hania nasceu em 27 de agosto de 1977, em Sidi Bouzid, na Tunísia
2025 – “A Voz de Hind Rajab” (ficção)
2023 – “As Quatro Filhas de Olfa” (documentário híbrido)
2022 – “A Bela e os Cães” (ficção)
2021 – “O Homem que Vendeu sua Pele” (ficção)
2016 – “Zaineb Não Ama a Neve” (docudrama)
2013 – “A Navalha de Tunes” (documentário-comédia)
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