Quando o crédito emergencial vira política climática

Ao liberar R$ 7,2 bilhões para enfrentar os efeitos de perdas climáticas no campo, dentro de um orçamento total de R$ 12 bilhões, o BNDES faz o que é possível no curto prazo. O produtor perdeu safra, ficou sem caixa e travou com bancos, cooperativas, CPRs, custeios e investimentos.
Sem essa ponte financeira, muitos simplesmente não atravessariam a próxima safra. Para a emergência, é a resposta disponível, e evitar o colapso é prioridade. O socorro emergencial resolve o hoje. O risco está em transformar exceção em regra.
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O problema começa quando esse tipo de solução deixa de ser exceção e passa a organizar o sistema. Aos poucos, o Brasil normaliza um modelo em que o Estado atua como segurador informal do risco climático, mas por meio de dívida, não de seguro. A intenção é proteger; o efeito colateral é perigoso.
Refinanciar e prorrogar dívidas de forma recorrente empurra o produtor para a lógica da sobrevivência financeira, não da produtividade. Dívida paga com dívida corrói limite, piora rating, encurta prazos, encarece juros e trava investimento. E agricultura feita com medo é agricultura que corta tecnologia, reduz manejo, usa menos insumo e produz menos.
Agricultura feita com medo reduz tecnologia, derruba produtividade e aumenta o risco da próxima quebra.
O ciclo se fecha rápido. O clima provoca a perda; a perda leva à renegociação; a renegociação descapitaliza; a descapitalização reduz investimento; a produtividade cai; a vulnerabilidade aumenta. Quando o próximo evento climático chega, e ele chega, o sistema exige novo socorro.
O próprio desenho do programa revela quem está mais exposto: agricultores familiares e médios produtores. O foco é correto, mas reforça um risco estrutural. Sem capacidade de recompor capital entre safras, esse produtor passa a depender do crédito público emergencial para seguir ativo. Evita-se o desastre hoje, mas constrói-se a dependência de amanhã.
Evita-se o colapso agora, mas planta-se a dependência financeira do futuro
Há ainda um custo pouco debatido. Não é apenas o valor autorizado. É a equalização implícita de juros, o peso fiscal das carências longas, o risco de inadimplência futura e, sobretudo, o custo macroeconômico: menos produção, menos renda, base produtiva mais frágil e maior necessidade de intervenção no próximo choque climático.
Eventos climáticos recorrentes já não são acidentes estatísticos; fazem parte do novo normal. Problemas estruturais não se resolvem com soluções emergenciais permanentes. O caminho mais inteligente é mudar o eixo do gasto público: menos refinanciamento e mais seguro rural de verdade, com subvenção bem desenhada, cobertura ampla e instrumentos modernos, inclusive paramétricos.
Refinanciamento é UTI: salva vidas, mas não pode virar o sistema inteiro.
Seguro é caro? É. Mas a pergunta correta é outra: é mais caro do que sustentar, safra após safra, um sistema em que o produtor só segue vivo porque o Estado reempacota a dívida?
Programas emergenciais são UTI: salvam vidas quando tudo falha. O erro é transformá-los no sistema inteiro. Se isso acontecer, o país troca produção por endividamento crônico, e a conta não fica no campo. Ela chega ao preço do alimento, à inflação e à economia como um todo.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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