A trajetória de Fanon, psiquiatra, filósofo e defensor dos “Condenados da Terra”, chega aos cinemas em emocionante versão ficcional
Por Maria do Rosário Caetano
“Psiquiatra, político e filósofo da Martinica”. Assim o brasileiro Vladimir Safatle define Frantz Fanon, pensador negro que construiu sua curta vida (apenas 36 anos) em três mundos. Na América Central, onde nasceu e cresceu, na Europa (França), onde formou-se médico-psiquiatra, e na África magrebiana (Argélia), onde exerceu seu ofício de “psiquiatra da Libertação” e ajudou no combate do povo argelino ao jugo colonial francês.
A trajetória de Frantz Omar Fanon (1925-1961), que já rendeu vários documentários, transformou-se, finalmente, em narrativa ficcional, escrita (com Faïza Guène) e dirigida por Jean-Claude Barny. E já lançada em diversos cantos do mundo, ano passado, data das comemorações do centenário de nascimento do autor de “Peles Negras, Máscaras Brancas”. Pois, agora e com certo atraso, a cinebiografia desse intelectual afro-antilhano, um dos mais importantes dos tempos modernos, chega aos cinemas brasileiros, nessa quinta-feira, 14 de maio.
Por sorte, o faz cercado de todas as atenções de sua distribuidora, a Fênix, que exibiu “Fanon” no Festival de Cinema Francês, o ex-Varilux, e estabeleceu parceria com a Flup, a inquieta Feira Literária das Periferias. Juntos, trouxeram Jean-Claude Barny ao Rio de Janeiro, onde ele participou de reflexão, em mesa especial, sobre o pensamento de Frantz Fanon.
A mesma Flup, em parceria com a Fênix e a Aliança Francesa carioca, organizou exposição itinerante sobre a trajetória do pensador e líder revolucionário martinicano-argelino. Depois do Rio, a exposição desembarcou em São Paulo (Casa da UNE – União Nacional de Estudantes).
A mostra reúne documentos, imagens e textos (alguns ainda inéditos no Brasil) e os curadores — Handerson Joseph e Sílvia Capanema – propõem “imersão no universo frantz-fanoniano”, capaz de “nos trazer o presente e o futuro, em conexão direta entre as periferias do mundo e os, ainda hoje, ‘condenados da terra’”.
Antes de adentrarmos nas propostas e resultado cinematográfico de “Fanon”, o filme de Jean-Claude Barny, vale conhecer a história desse realizador nascido, como Fanon, nas Antilhas Francesas (em Guadalupe). Como o mais famoso dos psiquiatras e revolucionários antilhanos, Barny mudou-se, na juventude, para a França. Na companhia da mãe, estabeleceu-se no bairro de Quatre-Vents, na periferia parisiense.
Inquieto e interessado em projetos audiovisuais, passou a integrar coletivo cinematográfico – o chamemos de “Trupe da Banlieue” ou “Trupe da Perifa” – do qual fazia parte Mathieu Kassovitz. Juntos, realizaram “O Ódio” (La Haine, 1995). Kassovitz como metteur en scène e Barny como diretor de casting. O filme, realizado em preto-e-branco, com baixo orçamento, tornou-se sinônimo de rebeldia. Estourou em seu país de origem e ganhou cinco estrelas das revistas Cahiers du Cinéma e Positif. E de Les Inrockuptibles. Competiu em Cannes, que laureou Kassovitz com o troféu de melhor diretor, triunfou no César, o “Oscar francês” e, o que mais impressiona, levou dois milhões de franceses aos cinemas. E ainda transformou um de seus protagonistas, Vicent Cassel, que tinha 18 anos anos quando atuou em “La Haine”, em ator dos mais requisitados.
Barny estava, pois, nos créditos do “Ódio”, filme duro e violento, verdadeiro manifesto da “Trupe da Banlieu”, que se propunha a realizar, a partir da periferia, produções capazes de mostrar a realidade dos marginalizados e revelar novos protagonistas (personagens e atores).
Trinta anos depois, Barny dirigiria “Fanon”, cinebiografia de um “marginal”, afro-martinicano, formado na metrópole, que se casaria com uma francesa de pele alva (Josie) e iria trabalhar num hospital-masmorra, em Argel.
Na colônia francesa, os portadores de doenças mentais eram tratados como bichos. Acorrentados, pelas mãos ou pelos pés. Até Fanon chegar, impregnado por novas ideias e disposto a não medir esforços para alterar aquele quadro angustiante.
O filme de Barny começa na Martinica. Um grupo de crianças procura caranguejos no mangue. Um deles é o pequeno Frantz. Depois dessa sequência fugaz, chegamos a Joinville, onde se dedicará à Medicina. Mais um momento fugaz, pois não assistiremos a uma daquelas cinebiografias que vão do nascimento ao túmulo. E sim a um filme interessado na maturidade e nas ideias sociais e políticas do psiquiatra. Aquele que buscaria, no hino da Internacional Comunista (1871) – “De pé, oh condenados da terra/De pé famélicos da fome” — inspiração para o título de seu livro mais famoso (“Os Condenados da Terra”).
Depois das cenas rápidas na Martinica e em Joinville, veremos o Dr. Fanon, vestido com terno escuro, desembarcar, com a esposa Josie, no Hospital Psiquiátrico Blida. Os dois serão recebidos por um homem branco, que confundirá o jovem de pele preta com um “carregador” de malas (da francesa de pele alva).
O recém-chegado, exposto ao racismo, enfrentará outros terríveis constrangimentos. Mas o filme apostará, sempre, na sutileza, no desempenho contido dos atores, no respeito aos desafios enfrentados pelo Dr. Fanon, de expressão francesa, exposto, de um dia para o outro (mas por vontade própria), a um mundo novo. Um território onde o árabe é a língua de comunicação. Contará, em seu trabalho cotidiano, com a ajuda de auxiliares argelinos (e bilingues), que traduzirão para ele o que dizem os internos de Blida. E, também, o que irão dizer os líderes da Revolução Argelina, interlocutores e companheiros de luta do psiquiatra.
O pano de fundo histórico de “Fanon” é a Guerra na Argélia (1954-1962). Aquela que antagonizou as tropas colonizadoras francesas aos rebeldes liderados por Ahmed Ben Bella, um dos fundadores da FLN (Frente de Libertação Nacional). História, lembremos sempre, narrada em filme obrigatório (“A Batalha de Argel”, de Gillo Pontecorvo, 1966).
A leucemia mataria o martinicano, filho adotivo da Argélia, antes do triunfo revolucionário (a independência do país árabe-africano aconteceria em junho de 1962, encerrando 132 anos de dominação). Fanon fôra enterrado seis meses antes, em dezembro de 1961.
Nada no filme é apelativo. Os loucos acorrentados e postos na escuridão, segregados por autoridades médicas e por auxiliares de enfermagem, são seres humanos, marcados por sofrimentos mentais e muitas privações.
O ator mais famoso do filme, o belga Olivier Gourmet, de presença recorrente nos filmes dos Irmãos Dardenne, interpreta, com a complexidade devida, o diretor do Hospital, o Dr. Darmain, que receberá o jovem psiquiatra. Até o sádico Sargento Rolland (Stanislas Merhar, de “Lavagem a Seco” e “Caso 137”), representante da brutalidade colonial francesa, fugirá dos esgares fáceis.
Os personagens árabes terão seus retratos bem desenhados (caso do Hocine, de Mehdi Senoussi, e do líder rebelde Ramdame, interpretado por Salem Kali). Destaque, também, para o médico judeu Jacques Azoulay (Arthur Dupont), que atuará com Fanon no Hospital de Blida.
Jean-Claude Barny conseguiu somar, em “Fanon”, um delicado retrato sentimental do médico e de sua dedicada parceira, aos seus embates épicos. Ou seja, à trajetória do pensador que enfrentou várias (e difíceis) guerras. Uma contra o racismo, outra contra a psiquiatria repressiva e a terceira contra o colonialismo francês.
Intelectual revolucionário, Fanon dedicou-se ao estudo dos efeitos devastadores do Colonialismo sobre a subjetividade dos povos colonizados. Primeiro, no livro “Pele Negra, Máscaras Brancas” (1952), fruto de seus estudos na França. Suas pesquisas serviram de base àquela que seria sua tese de doutorado em Psiquiatria, mas a comissão julgadora da Universidade de Lyon a rejeitou sob o argumento de que apresentara conteúdo pouco científico, pois “muito político e centrado na crítica ao racismo”. O doutorando teve que recorrer a outro estudo, no campo da Neurologia, para receber o título acadêmico que almejava.
Em “Os Condenados da Terra”, Frantz Fanon articularia pensamento crítico somado à ação política ao denunciar as violências simbólicas e estruturais do poder colonial. Estes escritos fertilizaram movimentos anticoloniais mundo afora.
Fanon, que morreu num hospital nos EUA, foi, segundo o filme de Barny, enterrado clandestinamente em solo argelino, nas proximidades da Tunísia. O país que havia adotado, afinal, ainda estava convulsionado pela luta contra o colonizador. Sua companheira, Josie Dublé Fanon, filha de sindicalista de esquerda, viveria por mais 28 anos. E continuaria divulgando a obra do marido. Buscaria, por vontade própria, a morte. Tinha 57 anos.
Do filme de Jean-Claude Barny, hão de ficar na memória afetiva do espectador alguns momentos marcantes. Além da sequência de racismo protagonizada pelo porteiro do Blida-Joinville, como não lembrar dos pacientes psiquiátricos do hospital, depois de retirados da escuridão, confraternizando-se em curioso jogo de futebol? Ou do diretor da instituição (Olivier Goumet) comentando que os internos não tinham jeito, por “não saberem respeitar regras”. Vozes de comando daqueles que estão sempre preocupados com a submissão dos outros por rígidos (e opressores) regramentos. E não podemos esquecer a cena do atropelamento de um carneiro e suas espantosas consequências. Fiquemos atentos.
Fanon
França, Martinica e Luxemburgo, 2025, cinebiografia, 133 minutos
Direção: Jean-Claude Barny
Roteiro: Jean-Claude Barny e Faïza Guène
Elenco: Alexandre Bouyer (Danon), Déborah François (Josie Fanon), Stanislas Merhar (Sargento Rolland), Darmain (Olivier Gourmet), Hocine (Mehdi Senoussi), Arthur Dupont (Dr. Jacques Azoulay), Salem Kali (Ramdane), Jamal Madani (Ben Abdullah)
Idiomas: francês e árabe (haverá cópias legendadas e dubladas em português)
Distribuição: Fênix Filmes
FILMOGRAFIA
Jean Claude Barny
Cineasta e roteirista, nasceu em Guadalupe, em 18 de abril de 1965, e tornou-se nome expressivo das diásporas negras de expressão francófona
2025 – “Fanon” (longa ficcional)
2016 – “Le Gang des Antillais” (“A Gangue das Antilhas”) – (direção)
2014 – “Rose et le Soldat” (telefilme) – evocação da Martinica durante a Segunda Guerra Mundial (direção)
2007 – “Tropiques Amers” (Trópicos Amargos) – série sobre a escravidão rodada em Cuba
2005 – “De Nèg Maron” (direção)
1995 – “O Ódio”, de Mathieu Kassovitz (Barny atuou como diretor de casting)
LIVROS DE (ou sobre) FANON publicados no Brasil
. “Pele Negra, Máscaras Brancas” (Ubu Editora)
. “Os Condenados da Terra” (Editora Zahar)
. “Alienação e Liberdade: Escritos Psiquiátricos (Editora Ubu)
. “O Ano V da Revolução Argelina” (Zahar)
. “Pensar Fanon” (diversos autores, entre eles, Achille Mbembe, Editora Ubu)
. “Desde Fanon”, de Deinison Faustino e Muryatan Barbosa (Boitempo Editorial)
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