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Pontes e Lacerda: 45 anos de ouro, sangue e soja – a história de uma fronteira que o Brasil insiste em ignorar

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Pontes e Lacerda: 45 anos de ouro, sangue e soja – a história de uma fronteira que o Brasil insiste em ignorar

Nesta sexta-feira, 06 de agosto, Pontes e Lacerda, o município mais pulsante da fronteira oeste de Mato Grosso, chega aos seus 45 anos de emancipação política. Mas, como bem lembram os mais antigos, a cidade já existia muito antes do papel assinado. Ela foi forjada na garra dos garimpeiros, na poeira das estradas e no brilho do ouro que, até hoje, continua a atrair sonhadores e aventureiros de todas as partes do país.

Para entender essa trajetória que mistura riqueza, violência e resistência, esta reportagem ouviu um historiador com mais de 35 anos de estudo dedicados à região Oeste de Mato Grosso. Ele, que pediu para não ter o nome divulgado, traça um raio-x impressionante da cidade que o Brasil ainda conhece muito pouco.


A origem: quando o ouro criou uma cidade antes mesmo da lei
Antes de ser município, Pontes e Lacerda era um amontoado de barracos e esperança. A emancipação veio com a Lei Estadual nº 4.159, sancionada em 06 de agosto de 1981, mas a ocupação efetiva começou na década de 1970, com a descoberta de jazidas na Serra de Santa Bárbara e na Serra do Caldeirão.

"O que pouca gente sabe é que Pontes e Lacerda não nasceu do boi nem da soja, como a maioria das cidades mato-grossenses. Ela nasceu do garimpo. Isso muda completamente o perfil do seu povo", explica o historiador, que prefere se manter reservado. "É uma população que aprendeu a viver na fronteira da legalidade, que confia mais na própria força do que no poder público. Isso tem vantagens, mas também um preço altíssimo."

Naquela época, a fiscalização era quase inexistente. O ouro corria solto, e o poder público aparecia mais para recolher impostos do que para garantir direitos. Foi nesse caldeirão que a identidade da cidade foi moldada: resiliente, desconfiada e acostumada a fazer as próprias regras.


2015: a "Nova Serra Pelada" que fez a cidade explodir
Se os primeiros 34 anos foram de garimpo constante, o ano de 2015 foi o divisor de águas. A descoberta de novas e ricas veias de ouro na região, apelidada pela imprensa nacional de "Nova Serra Pelada", reacendeu a corrida do ouro como há muito não se via.

O historiador lembra que o impacto foi avassalador:

"A cidade virou um formigueiro humano. Vieram garimpeiros da Bolívia, da Venezuela, de todos os estados brasileiros. Hotéis ficaram lotados, o comércio disparou, mas também houve um êxodo de mão de obra local. Até pedreiros e eletricistas largaram seus empregos para tentar a sorte no garimpo. A especulação imobiliária explodiu e o custo de vida subiu de forma absurda."

O ouro trouxe dinheiro, mas também distorceu a economia local. O comércio comemorava, mas o trabalhador comum via o salário perder valor da noite para o dia.

A face sombria: quando as facções criminosas se instalaram
Mas a história de Pontes e Lacerda tem um capítulo que nenhum morador consegue ignorar. Onde há ouro fácil, o crime organizado nunca demora a chegar.

Segundo o historiador, a escalada da violência está diretamente ligada à entrada de facções no controle do garimpo ilegal, especialmente na Terra Indígena Sararé.

"O que começou como uma 'segurança armada' para proteger os garimpeiros, rapidamente virou domínio total. As facções passaram a controlar a logística, a venda de insumos, o combustível e, claro, a boca de caixa. Elas não são mais coadjuvantes; são protagonistas da economia paralela", afirma o historiador.

O reflexo disso está nas estatísticas e no dia a dia da cidade:

Assassinatos por disputa de áreas de garimpo.

Corpos encontrados em estradas e sob pontes.

Aumento do tráfico de drogas e da exploração sexual.

Operações da Polícia Federal e do Ibama aparecem, queimam máquinas e destroem acampamentos, mas o problema estrutural permanece. Como o historiador ressalta: "O Estado age como bombeiro, mas não resolve a raiz do incêndio. As quadrilhas simplesmente se deslocam para outra área."

O outro lado: soja e pecuária tentam escrever um novo capítulo
No entanto, o historiador faz questão de alertar: Pontes e Lacerda não é só garimpo e violência. Há uma outra cidade, menos visível, mas que cresce firme e legalmente.

A pecuária de corte sempre foi uma base sólida. Atualmente, o município conta com um rebanho de cerca de 700 mil cabeças de gado, o que o coloca entre os maiores do estado em produção pecuária. Mas o grande destaque da última década foi a soja.

A produção de grãos quadruplicou nos últimos dez anos, chegando a impressionantes 440 mil toneladas na última safra. Tratores com piloto automático, sementes de alta tecnologia e uma logística que se beneficia da BR-364 mostram que a cidade também quer ser protagonista do agronegócio nacional.

"Essa dualidade é o que torna Pontes e Lacerda tão única e tão complexa. Você tem, de um lado, o garimpo ilegal, o crime e a devastação; de outro, o agro tecnificado, a pecuária e os empresários que querem ver a cidade crescer dentro da lei. São dois Brasis que se esbarram todos os dias nas mesmas ruas", compara o historiador.

O que se vê hoje é uma cidade que carrega as cicatrizes da origem garimpeira, mas que também ensaia um futuro mais promissor com o agronegócio. A história de Pontes e Lacerda não está em livros de biblioteca – ela está sendo escrita todos os dias, na bateia dos garimpeiros, no painel das colheitadeiras e nas noites de violência que ainda assustam os moradores.

Parabéns, Pontes e Lacerda
Aos 45 anos, a cidade completa mais um ciclo de sua existência. Que os próximos anos sejam marcados por mais justiça, mais oportunidades e, principalmente, menos sangue e mais paz para os seus mais de 55 mil habitantes.



Fontes consultadas: depoimento de historiador com 35 anos de estudo na região, dados do IBGE, SEFAZ-MT e reportagens da imprensa local.

Fonte: Da redação

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